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Cristiano Romero: O custo de não se fazer o ajuste

Nunca uma crise foi tão antecipada no Brasil quanto a atual. Há quase cinco anos vários analistas vêm alertando que o caminho escolhido pela presidente Dilma Rousseff levaria o país, senão ao desastre, a uma forte desaceleração . Infelizmente, a primeira opção está se materializando porque o governo se nega a corrigir o rumo. O adiamento do ajuste na prática o inviabiliza porque, politicamente, com a economia no chão, fica cada vez mais difícil superar a reação dos grupos que perderiam com mudanças.

Em 2013, a economia já vivia os efeitos do que ficou conhecido como Nova Matriz Econômica, conjunto de medidas que substituiu a política adotada com razoável sucesso pelos governos Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) e Lula (2003-2010). Em 2012, com Brasília gastando o que não podia, taxa de câmbio desvalorizado e menor taxa real de juros da história, o Produto Interno Bruto (PIB) recuou fortemente em relação a 2011, sinal de que o empresariado – que é quem decide investir – não confiou na nova política.

No primeiro trimestre de 2013, Dilma teve que lidar com o fracasso da Nova Matriz, evidenciado pela forte pressão que o ex-presidente Lula lhe fizera para mudar a política, a começar pela sugestão de troca do então ministro da Fazenda, Guido Mantega, por Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central (BC). Ela resistiu às pressões, mas, em maio, foi o mundo que começou a mudar quando Ben Bernanke, então presidente do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, anunciou que a política de afrouxamento monetário seria desmontada.

O que se viu rapidamente dali em diante foi o reposicionamento de todas as moedas em relação ao dólar. Era algo que se antecipava já há algum tempo. No caso do Brasil, o real sofreu uma primeira rodada de depreciação e mesmo a presidente se convenceu de que sua Nova Matriz precisava passar por correções. O BC foi liberado a mexer nos juros, mas, na outra ponta da política econômica – a área fiscal -, a presidente não admitiu mudança de rota.

O custo de não se fazer na hora certa o que precisa ser feito costuma ser alto. Em meados de 2013, o país assistiu, perplexo, à primeira grande onda de manifestações. Os movimentos organizados e os não organizados tiveram seus méritos, mas a confusão é grande. As ruas não pedem reformas para solucionar, por exemplo, o já explosivo déficit das previdências social e do setor público; elas pedem mais e não menos gasto público, mais benefícios, mais assistência.

Dilma gastou o restante do primeiro mandato elevando o gasto de forma exponencial, embora sem atender às demandas sociais. Perdeu-se um tempo precioso que poderia ter sido usado para começar o ajuste que certamente teria evitado a situação atual. Some-se isso à ausência de ajuste no primeiro ano do segundo mandato e já são três anos perdidos desde o discurso de Bernanke. Há três anos, ainda era possível contar com alguma ajuda do exterior; agora, nem isso mais.

O ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, tem sido bom de conversa, mas na prática não consegue fazer nada do que promete – as reformas fiscais são para a próxima década; não haverá superávit primário também neste ano, o que significa que o déficit público seguirá elevado, aumentando a dívida bruta; o governo flerta novamente com a ideia de bombar a economia com crédito público. Em sua tentativa vã de acalmar os mercados, Barbosa oferece futuro para ter o presente. Sem enfrentar o problema de curto prazo, que paralisa o investimento privado, o Brasil não terá nem um nem o outro.

A turbulência atual é uma prova de que o PT não aprendeu com a crise de 2002/2003, a de sua chegada ao poder. Naquela ocasião, o ajuste foi feito. Não havia outra saída e funcionou: no terceiro trimestre de 2003, a economia já voltara a crescer. A crise, como a de agora, era de confiança. Não houve titubeio: o então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, convenceu Lula de que o ajuste seria doloroso e enfrentaria críticas e resistências, principalmente do PT, mas que, quanto mais rapidamente fosse feito, mais célere seria a recuperação.

O quadro é desolador porque 2016 se mostra ainda mais difícil que 2015. No ano passado, o mercado acreditava no ministro da Fazenda. Até julho, as expectativas convergiram. Elas começaram a piorar quando o governo anunciou que faria um superávit primário bem menor que o prometido. A casa caiu um pouco mais adiante quando se decidiu encaminhar ao Congresso um Orçamento com previsão de déficit, fato inédito na história da contabilidade pública mundial.

O BC de 2016 também não é o mesmo de 2015, embora seu comando não tenha mudado. O presidente da instituição, Alexandre Tombini, era um quando a Fazenda estava nas mãos de Joaquim Levy; é outro com Nelson Barbosa. Tombini, por presidir uma instituição como o BC, poderia ficar mais distante do Palácio do Planalto, mas não consegue. Ele é suscetível ao ambiente e este mudou.

Não é esta coluna que diz que o BC não tem credibilidade, mas o regime de metas. Pelo regime, a autoridade monetária é crível quando as expectativas de inflação de mais de uma centena de participantes e não participantes do mercado estão na meta (4,5%). No curto prazo, é normal que, influenciadas por questões conjunturais, como a quebra de safra agrícola ou a desvalorização do real, as expectativas se deteriorem, mas, quando se fala de dois anos à frente, não há dúvida: se o BC tem credibilidade, elas ficam na meta porque os agentes econômicos acreditam no compromisso da autoridade; nunca foi o caso da gestão Tombini, a não ser por um breve período de 2015. (Valor Econômico – 17/02/2016)

Cristiano Romero é editor-executivo e escreve às quartas-feiras

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