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O Globo: Para Lava-Jato, propina da Petrobras pagou marqueteiro

O Globo

O marqueteiro João Santana negou ontem ao depor que o dinheiro recebido em uma conta na Suíça tenha relação com campanhas políticas no Brasil, mas a força-tarefa da Lava-Jato já relaciona o dinheiro recebido por ele, que fez campanhas para o PT, com o esquema de propina da Petrobras. Os procuradores investigam se o operador Zwi Skornicki depositou US$ 4,5 milhões na conta de Santana na Suíça a pedido do ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto, que, dessa forma, quitaria despesas do partido com o publicitário. Para os investigadores, a propina teria saído da plataforma P-52 da estatal ou de sondas do pré-sal contratadas do estaleiro Keppel Fels, representado por Skornicki.

— A Lava-Jato mostra que o pagamento a partidos políticos é um sistema de conta e compensação. O Vaccari mais de uma vez disse a operadores: “Paga lá que eu estou devendo a tal pessoa e você abate aqui”. Suspeito que isso aconteceu. Zwi foi orientado a pagar Santana por algum serviço que lhe deviam — disse ao GLOBO o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima. O delator Pedro Barusco, ex-gerente de Serviços da Petrobras, disse em depoimento que Skornicki liquidou em 2013 uma “alta soma de propina”, acumulada em contratos de 2003 a 2009, e que costumava “conversar diretamente com Vaccari”.

Em janeiro, em novo depoimento, Barusco disse ter ouvido de Skornicki que ele “havia pago cerca de US$ 4,5 milhões adiantados para Vaccari” por contratos de sondas com a Sete Brasil, que tem a Petrobras como sócia. O valor e as datas coincidem com os pagamentos a Santana. Entre as campanhas que ele fez, estão a do ex-presidente Lula (2006) e da presidente Dilma Rousseff (2010).

MÔNICA LIGA DEPÓSITOS A CAMPANHA EM ANGOLA

Os pagamentos de Skornicki a Santana foram feitos entre 2013 e 2014, em nove parcelas — três durante a campanha de reeleição de Dilma. O banco usado para fazer as transferências, o Delta, foi o mesmo usado pelo operador para pagar propina a Barusco no exterior. Segundo o delator, o dinheiro da P-52 foi todo para o PT e para Renato Duque, então diretor de Serviços da Petrobras. Para o procurador, o dinheiro que chegou a Santana saiu da Petrobras. Em depoimento à Lava- Jato, anteontem, Mônica Moura, mulher de Santana, disse que os depósitos de Skornicki são vinculados à campanha presidencial de Angola.

— Não existe explicação lógica para não dizer que o dinheiro pago por Skornicki não saiu da Petrobras. Depois de tudo que aconteceu no mensalão, é no mínimo ingenuidade — disse o procurador. Ao depor ontem, Santana admitiu ser o controlador da conta da Shellbill na Suíça, mas atribuiu à mulher a responsabilidade pela movimentação financeira. Ele não soube esclarecer a origem dos valores que entraram nessa conta, nem o destino deles. Afirmou que Mônica sempre cuidou da área administrativa e financeira das empresas, mas não soube dizer se ela tinha procuração para movimentar a conta fora do Brasil.

Santana alegou que a conta na Suíça foi aberta no fim dos anos 1990. Garantiu que pretendia legalizá-la, mas “sempre houve dúvidas em relação a qual país devesse fazê-lo”, já que a conta recebia recursos de campanhas no exterior. O publicitário disse ainda desconhecer os depósitos de Skornicki e o bilhete apreendido pela Polícia Federal, enviado ao operador por Mônica. Nele, ela afirma que havia apagado, “por motivos óbvios”, o nome de uma empresa. Santana disse que esteve uma só vez com Marcelo Odebrecht, em evento social, e que não conhece o avô e o pai do empresário.

Acrescentou que não tem relação com “Feira”, apelido citado numa planilha de propina apreendida e que Polícia Federal acredita se referir ao publicitário. Santana autorizou a quebra de sigilo da conta na Suíça e negou ter outra no exterior. O advogado de Santana, Fábio Tofic, disse que seu cliente não tomava conhecimento dos valores que recebia e que chegou a chamar a conta na Suíça de “um tormento”.

— O João não sabia disso, ele é um criador, não trabalha com questão financeira. Segundo Tofic, o casal quer regularizar a situação da offshore Shellbill, com sede no Panamá, e da conta na Suíça. O casal está preso desde segunda- feira. A defesa de Skornicki informou que se manifestará nos autos do processo.

Lobista que fez depósitos é próximo de Vaccari

O Globo

Relatório produzido pela Polícia Federal aponta que o empresário Zwi Skornicki, tido como um dos operadores do esquema de corrupção na Petrobras e preso na 23ª fase da Operação Lava-Jato, tinha relação próxima com o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto e outros diretores da estatal indicados por petistas. Segundo o documento, Skornicki convidou Vaccari e outros membros da cúpula da Petrobras para o aniversário de seu filho mais novo, Bernardo.

Além do ex-tesoureiro do PT, condenado há 15 anos e preso em Curitiba, Skornicki chamou para a festa o ex-diretor de Serviços Renato Duque, o ex-diretor da área internacional Jorge Zelada e o ex-gerente Pedro Barusco. Por ironia, foi Barusco quem, em delação premiada, trouxe o nome do empresário polonês à tona. Condenados, Duque e Zelada estão presos. Já o ex-gerente, apesar de ter sido condenado, está em prisão domiciliar em virtude da delação. O documento da PF aponta que também foram convidados para a festa outros operadores do esquema.

O relatório diz que Skornicki comprou aparelhos de ginástica para Duque como forma de pagamento de propina e bancou a execução de serviços e a instalação de equipamentos na residência de Armando Tripoli, ex-chefe de gabinete de José Sérgio Gabrielli, presidente da Petrobras de 2005 a 2012. O nome de Skornicki — representante desde 2000 da Keppel Fels, uma empresa de Cingapura — apareceu na 9ª fase da Lava-Jato, denominada “My way”, deflagrada em fevereiro do ano passado. Na ocasião, ele foi levado a depor e ficou calado. A acusação era a de que ele operava pagamento de propina no âmbito do estaleiro Keppel Fels de 2003 a 2013 e era responsável pela transferência de valores a Duque, Barusco e ao PT, por meio de Vaccari.

Na 23ª fase da Lava-Jato, a acusação é a de que ele enviou dinheiro ao marqueteiro do PT João Santana por meio de uma offshore. Em entrevista ao GLOBO na época da fase “My way”, Skornicki foi questionado sobre sua relação como ex-tesoureiro do PT: — Conheço (o Vaccari). Quando teve inauguração das plataformas, da 52 e da 56, ele esteve junto. Skornicki disse que, como representante da Keppel Fels, encontrava- se com Duque, Zelada e Barusco: — Quando encontrava o doutor Barusco, o doutor Zelada ou o doutor Duque era quando eles iam em Cingapura ver os andamentos das obras (das plataformas).

Durante a entrevista, o polonês afirmou que conhecia Duque, indicado do PT para a Diretoria de Serviços, desde 1992. Nessa época, ele trabalhava na Odebrecht e Duque, na área de Exploração e Produção da Petrobras. O empresário negou envolvimento no esquema de corrupção: — Sou transparente, trabalhei pesado, tenho tudo no meu nome. Não escondo nada, não tenho laranja. Para a PF, no entanto, Skornicki e sua mulher, Eloisa, ocultaram das autoridades brasileiras seis contas no exterior.

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