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Humberto Saccomandi: Onda populista ameaça a democracia ocidental

A democracia ocidental, consolidada ao final da Segunda Guerra Mundial, está sob forte tensão, talvez a mais grave desses 70 anos. Nos EUA e na Europa, o avanço do populismo, de direita e de esquerda, ameaça levar o mundo a uma era de incertezas.

O tema foi destaque no debate ontem dos líderes do G-7. “2017 com Trump, (Marine) Le Pen, Boris Johnson, Beppe Grillo?”, tuitou Martin Selmayr, assessor de Jean-Claude Juncker, que preside a Comissão Europeia. Ele se referia a políticos populistas nos EUA, na França, no Reino Unido e na Itália que podem estar no poder em 2017. “Um cenário de horror, que mostra muito bem por que vale a pena combater o populismo”, disse.

O avanço de forças políticas populistas nos países da União Europeia (UE) vem afetando mais fortemente partidos tradicionais do continente e já influencia a formulação de políticas.

Na Áustria, os partidos que se alternam no poder desde 1946, o Social Democrata e o Popular, ficaram de fora do segundo turno das eleições presidenciais, no domingo. O vencedor (por só 31 mil votos, em 4,5 milhões) foi um candidato independente, que derrotou o rival do Partido da Liberdade, de extrema direita. Pressionado, o governo do país (social-democrata) já endureceu a política de imigração e iniciou a construção de muros em trechos da fronteira com a Itália, criando tensão com parceiros da UE.

Na Alemanha, os partidos que também se alternam no governo desde 1949, a União Democrata Cristã, da premiê Angela Merkel, e o Partido Social Democrata perderam votos nas três eleições estaduais de março. A sensação foi o avanço do Alternativa para a Alemanha, partido populista de direita, xenófobo e antieuropeu.

Na Espanha, haverá novas eleições em junho, depois que as de dezembro não permitiram a formação de nenhuma maioria no Parlamento. Esse impasse surgiu com o fim de 30 anos de bipartidarismo do Partido Popular e do Partido Socialista (Psoe). Os novos atores políticos são o Podemos (de esquerda) e o Ciudadanos (centro). Pesquisas, porém, indicam que os quatro partidos devem ter a mesma votação, mantendo a dificuldade de formar um novo governo.

Na França, a direitista Frente Nacional (xenófoba, anti-euro e anti-UE) vem tendo resultados eleitorais sólidos, enquanto o socialista François Hollande é aprovado por apenas 17%, sendo o presidente mais mal avaliado no país desde a Segunda Guerra.

Da Suécia à Itália, partidos populistas e/ou extremistas entraram nos Parlamentos nacionais nos últimos anos.

Nos EUA, após anos de paralisia política no Congresso, cresce a possibilidade de Donald Trump chegar à Presidência. Ele assegurou a candidatura republicana, contra a vontade da da cúpula do partido, com um mix de propostas xenófobas, populistas e isolacionistas.

Com suas propostas e práticas, essa onda populista ameaça a estrutura institucional e política que caracteriza há décadas o modelo de democracia ocidental.

A grande maioria dos partidos populistas europeus é contra a UE e/ou contra o euro. Alguns, como o Movimento 5 Estrelas, na Itália, se recusam a fazer alianças, não são partidos de consenso, o que dificulta e pode inviabilizar coalizões de governo. Esses partidos se caracterizam mais por suas posições negativas, isto é, por serem contra alguma coisa (o euro, a imigração, a presença islâmica, o livre comércio) do que por propostas realistas para lidar com essas questões. Ao tornarem o consenso político mais difícil e instável, como na Espanha, esses partidos enfraquecem a política, o que, por sua vez, os fortalece. Por fim, a crescente instabilidade política prejudica a recuperação econômica, o que também acaba alimentando o populismo.

Há várias causas para esse avanço populista, sob o pano de fundo da crise econômica que se iniciou em 2008, e da recente onda de refugiados, associada ao terrorismo de grupos islâmicos.

Após oito anos de crise, cresce a percepção de resposta ineficaz dos governos. O desemprego segue alto em boa parte da UE. Caiu nos EUA, mas os salários não crescem. A classe média se sente empobrecida. A paralisia política nos EUA e a fixação da Alemanha com a política de austeridade inibem a tradicional resposta keynesiana (que prevê mais gastos e endividamento público para compensar o recuo dos gastos das famílias e empresas). Para alguns economistas, como o americano Paul Krugman, isso retarda desnecessariamente a recuperação das economias.

Ainda que a austeridade faça sentido econômico no longo prazo, no curto prazo ela está alimentando o populismo político. A UE percebeu esse risco e nas últimas semanas autorizou a Itália a elevar o gasto público e rejeitou punição a Espanha e Portugal por não cumprirem suas metas de déficit público.

Há ainda a percepção de que governos e partidos deixaram de servir ao cidadão comum e foram tomados pela elite econômica e financeira. Daí a rejeição aos partidos tradicionais e o avanço de novas legendas e candidatos.

Um dos motivos mais citados por eleitores para apoiar Trump é a insatisfação com Washington, com a política tradicional. Trump se apresenta como um outsider, como alheio à promiscuidade entre poder e capital. Esse é justamente um ponto vulnerável da virtual candidata democrata, Hillary Clinton, que costuma ser associada ao setor financeiro.

Há também uma tolerância cada vez menor com a corrupção. Os sacrifícios impostos pelo corte de gastos sociais exacerbou essa rejeição. Na Espanha, os tradicionais partidos PP e Psoe estão imersos em escândalos que vêm minando sua base eleitoral.

Parece crescer também a percepção de que esses sacrifícios não são distribuídos de forma justa na sociedade, o que vem elevando a desigualdade. Muitos governos relutaram e relutam em aumentar impostos para os mais ricos e sobre ganhos de capital, o que poderia mitigar os cortes de gastos sociais. Nos EUA, Trump chegou a propor (depois recuou) elevar impostos dos mais ricos, como defende Hillary. Mas isso depende do Congresso, onde a maioria republicana vê altas de impostos como um anátema.

Esse sentimento está por trás da reação violenta na França à proposta de reforma trabalhista do governo socialista, que, entre outras coisas, amplia a jornada semanal de trabalho e facilita demissões. A reforma faz sentido economicamente, pois flexibiliza o rígido mercado de trabalho francês, facilitando também as contratações e ampliando a competitividade das empresas. Mas é vista como beneficiando um setor já privilegiado.

No Brasil, líderes políticos e empresariais deveriam refletir mais sobre os riscos dessa onda. (Valor Econômico – 27/05/2016)

Humberto Saccomandi é editor de Internacional. Escreve mensalmente às sextas-feiras
E-mail: humberto.saccomandi@valor.com.br

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