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Cristiano Romero: A queda do PIB potencial

Uma das consequências mais nefastas da tragédia vivida pelo Brasil nos últimos anos foi a redução drástica de sua capacidade de crescer. Na era Dilma Rousseff (2011-2016), o crescimento potencial caiu de 4% para algo em torno de 1% ao ano. Registre-se: o país só voltará a crescer 1% depois de encontrar uma solução para o gigantesco problema fiscal criado pelos últimos dois governos. No biênio 2015-2016, o Produto Interno Bruto (PIB) deve encolher quase 8% – 3,8% em cada ano -, com queda de 10% da renda per capita no período.

O que explica a forte queda do PIB potencial é o recuo dos investimentos tanto do setor privado quanto do público, especialmente do privado, o mais relevante. A participação dos investimentos – Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), indicador que mede a compra de máquinas e equipamentos e os gastos com construção civil, e a variação de estoques – na expansão do PIB vem caindo desde 2011, quando Dilma assumiu o poder.

A contribuição anual média dos investimentos para o PIB foi de 0,4 ponto percentual entre 1997 e 2015, período que já contempla a última revisão das contas nacionais trimestrais empreendida pelo IBGE. De 1997 a 2010, a média anual foi de 0,7 ponto percentual. No reinado de Dilma, foi negativa em 0,6 ponto percentual ao ano. Em 2010, último ano de crescimento vigoroso da economia brasileira (7,5%), a contribuição dos investimentos para o PIB foi de 5,4 pontos percentuais; em 2015, foi de -3,8 pontos percentuais.

Esse é um excelente indicador para avaliar o efeito das políticas de um governo sobre o humor dos empresários. Com uma política econômica razoavelmente pragmática, herdada em grande medida de seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva fez o setor privado acreditar que valia a pena investir em aumento de capacidade. Com sua Nova Matriz Econômica, Dilma rompeu com a confiança e acabou com a previsibilidade. Os empresários se retraíram.

Na base da desconfiança, está a devastadora deterioração das contas públicas protagonizada pela gestão Dilma como política de governo – seus economistas de fato acreditavam que a geração de superávits primários era um expediente para enriquecer rentistas e não para impedir a escalada da dívida pública. “Parte importante da contração recente dos investimentos está associada à dinâmica das contas fiscais nos últimos anos. O aumento da incerteza sobre a sustentabilidade da dívida pública contribuiu muito para a depreciação cambial dos últimos anos”, explica Nilson Teixeira, economista-chefe do banco Credit Suisse.

Num pequeno estudo que acaba de sair do forno, Nilson e sua equipe mostram as principais consequências desse processo sobre as empresas não financeiras. São elas:

1. o forte crescimento da dívida externa e da despesa com serviço (juros) dessa dívida. “O serviço da dívida como percentual do PIB do setor privado não financeiro cresceu bastante, tanto para padrões internacionais quanto na comparação histórica”, diz o estudo. A elevação da alavancagem (relação entre dívida e geração de caixa) do setor corporativo privado não financeiro desestimulou os investimentos nesse segmento, que concentra a maior parte do investimento total;

2. a expressiva desaceleração do crédito bancário e o aumento dos spreads sobre os juros em um contexto de aumento da aversão ao risco do setor bancário brasileiro;
3. a elevação dos preços dos investimentos, em decorrência do alto percentual de importados (cerca de 40%) no investimento em máquinas e equipamentos.

“A contração dos investimentos também tem impacto sobre a expansão do PIB no longo prazo, ao diminuir o crescimento potencial da economia. Países capazes de manter uma alta taxa de investimento por período prolongado também experimentaram maior e mais sustentada expansão do PIB”, observa Nilson.

Apesar da calamidade dos anos Dilma – a catástrofe poderia ter sido evitada se a presidente afastada não tivesse mexido no que já estava razoavelmente arrumado -, o Brasil vem investindo pouco há décadas. De 1970 a 1979, período que compreende parte do “milagre econômico” e os efeitos do primeiro choque do petróleo, a taxa de investimento saltou de 18,8% para 24,4% do PIB em 1975, recuando em 1979 para 23% do PIB. De 1980 a 1989, anos do segundo choque do petróleo, crise da dívida e aceleração da inflação, vai a 26,9% em 1989, a maior taxa entre 1970 e 2015. De 1990 a 2015, da hiperinflação ao Plano Real, passando pelo reordenamento mínimo das contas públicas, os investimentos caem, no último ano da série, para 18,2% do PIB.

Quando se observa a participação do setor público no investimento total, o que se constata é que ela é relativamente baixa, quando comparada à de outros países. E vem caindo. Recuou de 3,7% do PIB em 1970 para 3% em 2013. No período em que o governo Lula, sob a influência de Dilma, lançou o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) para aumentar os investimentos públicos, a participação não se alterou – foi de 3,1% do PIB ao ano.

Num estudo realizado pelo Fundo Monetário Internacional considerando 114 países, o Brasil perde em todas as categorias no quesito investimento. Tomando-se o período 2006-2015, o estoque de investimento anual médio do Brasil foi de 19,5% do PIB, abaixo da média geral (23,4% do PIB), dos emergentes (25,2% do PIB), das economias avançadas (21,6% do PIB) e da América Latina (21,9%). Em 2015, o estoque no Brasil caiu para 18,2% do PIB e em 2016, estima Nilson Teixeira, recuará para 16,4% do PIB. Um vexame!

Nilson e sua equipe calcularam a correlação média entre taxa de investimento e crescimento do PIB das economias avaliadas pelo FMI, no período mencionado, e concluíram que, para uma expansão de 4% do PIB está associado um investimento de 28% do PIB, número que supera em dez pontos percentuais o nível alcançado pelo Brasil no ano passado.

É no mínimo curioso que, entre 2008 e 2015, o Tesouro tenha transferido ao BNDES, por meio de empréstimos subsidiados, o equivalente a 10% do PIB e, no mesmo período, a taxa de investimento da economia tenha caído de 19% para 18,2% do PIB. Onde foi parar aquele dinheiro?

“O crescimento potencial do país diminuiu significativamente nos últimos anos. A elevação da incerteza reduziu os investimentos e diversas medidas (por exemplo, conteúdo nacional, direcionamento de crédito) diminuíram a eficiência da economia. Enquanto estimavam crescimento potencial superior a 4% no fim da década passada, os modelos tradicionais de função de produção sugerem, agora, um crescimento mais próximo a 1,0%”, adverte Nilson Teixeira. (Valor Econômico – 01/06/2016)

Cristiano Romero é editor-executivo e escreve às quartas-feiras
E-mail: cristiano.romero@valor.com.br

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