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Para pesquisador da FGV, “nova matriz econômica” ainda atrapalha o Brasil

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Samuel Pessôa não descarta aumento transitório de impostos, em paralelo à necessária redução de despesas

Em entrevista a O Financista, Samuel Pessôa vê aprovação do teto do gasto como um primeiro passo para a reforma da Previdência

Conrado Mazzoni – O Financista

SÃO PAULO – O físico Samuel Pessôa reconhece que há gente boa projetando uma recuperação rápida da economia brasileira, mas mantém um pé atrás na hora de comemorar um eventual aumento do PIB no ano que vem. Pesquisador do Ibre, o Instituto Brasileiro de Economia da FGV do Rio de Janeiro, e sócio da consultoria Reliance, ele prevê estagnação em 2017, após um tombo de 3,5% neste ano.

As razões do ceticismo derivam dos anos de nova matriz econômica dos governos Lula e Dilma. O doutor em economia pela USP aponta sequelas que dificultam o crescimento, situação agravada pelo alto endividamento de famílias e empresas.

Estudioso do salto explosivo do gasto público, Pessôa não descarta aumento transitório de impostos, em paralelo à necessária redução de despesas. Mas é preciso colocar na conta o efeito sobre o nível geral de preços. “Vamos primeiro combater a inflação, reancorar as expectativas, aumentar a confiança de todo mundo na política monetária, para que o custo de desinflação seja mais baixo. Então, poderemos voltar com a agenda de carga tributária”, diz.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista a O Financista:

O Financista: Após anos de leniência com a inflação durante a gestão Alexandre Tombini, o custo do combate à inflação é maior?

Samuel Pessôa: O custo, evidentemente, ficou mais alto. O comunicado do Copom reforça essa visão. Um dos itens mencionados é que a sequência de anos com inflação acima da meta aumenta a inércia. Entendo que a nova diretoria do BC vai retomar a prática de considerar não somente o cenário de referência a caminho da meta, mas também o cenário projetado pelo mercado. Com Tombini, houve certo desprestígio da expectativa do mercado acerca da inflação. Não levar isso em consideração acabou provocando um efeito “retroalimentador”: o mercado não acredita que a inflação vai para a meta, as expectativas ficam mais altas e o custo de reduzir a inflação aumenta. Creio que estamos perto de um ciclo de afrouxamento monetário, provavelmente em algum momento no último trimestre do ano.

O Financista: No cenário base do Copom, a inflação deve chegar a 4,5%, em 2017. O mercado ainda aponta 5,3%. O senhor aposta na primeira ou na segunda estimativa?

Pessôa: Eu comecei o ano mais pessimista com inflação. Estimava algo na casa de 8%, neste ano, e em torno de 6%, no ano que vem. Agora acho que este ano será na casa de 7,5%, talvez um pouco mais baixo; em 2017, já consigo ver possibilidade de inflação na meta ou muito perto dela. Uma questão que envolve o cenário inflacionário é que se considerava uma rodada de aumento de carga tributária, o que afeta a inflação. Vejo que há um entendimento de que o custo inflacionário de aumento de impostos é muito alto hoje, até por conta da inércia muito alta e das expectativas muito desancoradas. É possível, portanto, que a estratégia mude. Vamos primeiro combater a inflação, reancorar as expectativas, aumentar a confiança de todo mundo na política monetária, para que o custo de desinflação seja mais baixo. Então, poderemos voltar com a agenda de carga tributária.

O Financista: O senhor considera inevitável algum aumento de imposto temporário?

Pessôa: Aumento de carga tributária tem impacto sobre o crescimento, a médio prazo, e sobre a renda per capita, no longo prazo. Se há uma demanda por elevar gastos sociais ou qualquer outra coisa, acho sempre melhor financiar por meio de aumento de impostos do que por meio de inflação. Depois de guerra civil, a maneira menos civilizada de gestão do conflito distributivo em uma sociedade moderna é a inflação. Mas há limites para o aumento da carga tributária. Se gerar um choque inflacionário, é preciso gastar com juros e desencadear uma pequena recessão que tem um custo fiscal. Ponha isso na conta e compare com o ganho tributário. Objetivamente, se reduzirmos muito os gastos, ainda daria para escapar do aumento de carga tributária. Teria que mudar a regra de reajuste do salário mínimo e de vencimentos dos servidores, considerando só a inflação e não o crescimento real do PIB; fazer uma reforma da previdência com uma transição mais rápida; reduzir o gasto discricionário. Mas o risco é imenso. É preciso colocar na conta o elevado nível de dívida e do gasto e rezar para que o mundo continue comprador como está, com juro baixo… São muitos fatores. Por isso, eu seria favorável ao aumento de carga tributária transitório. Talvez tenhamos de esperar um pouco para fazer isso, quando as expectativas estiverem melhores.

O Financista: Qual a sua percepção sobre a atividade econômica?

Pessôa: A mudança do governo teve impacto sobre as expectativas, que melhoraram muito. Isso está associado à percepção de que o país não aguentaria dois anos e meio da presidente Dilma. Além de ela ter perdido qualquer capacidade de coordenação junto ao Congresso Nacional, está mais do que provado que ela é uma pessoa completamente inepta e incapaz para um cargo dessa natureza. A troca pelo Temer já produziu um impacto importante sobre as expectativas que tínhamos. Alguns analistas mais otimistas falam até em crescimento de 2% do PIB em 2017. No Ibre, estamos mais céticos. Achamos que vai demorar um pouco mais para a economia religar. Eu entendo quem está mais otimista porque, de fato, as últimas recuperações cíclicas foram rápidas. Nós, porém, vemos uma recuperação mais lenta. O número do Ibre com o qual trabalho é zero para o ano que vem. Há dois fatores. Primeiro, seis anos de “nova matriz econômica”, de 2009 a 2014, pioraram muito a microeconomia do país e, portanto, afetaram muito a capacidade de crescimento da economia. O segundo fator é que esta é a primeira crise que entramos com a economia alavancada. Ingressamos na crise com o crédito como proporção do PIB batendo em 50%. Sabemos que o balanço das famílias e o balanço das empresas estão machucados.

O Financista: No meio do caminho, há a agenda de reformas. A proposta de emenda constitucional que limita o crescimento do gasto público apenas prepara o terreno para avançarmos na reforma da Previdência?

Pessôa: Sim, é um primeiro passo. Há muitos outros gastos que crescem vegetativamente. A ideia da PEC do gasto é funcionar como um mecanismo de coordenação do nosso conflito distributivo. A sociedade brasileira é muito heterogênea e complexa. Desde a constituinte de 1988, cada grupo de pressão consegue colocar seu interesse na Lei com maior ou menor grau de legitimidade social. Durante muito tempo, conseguimos empurrar esse problema com a barriga porque tivemos um período em que a receita crescia a uma velocidade espetacular, o dobro do ritmo de crescimento do PIB. Quando passamos a ter um comportamento normal da receita, vieram as disfuncionalidades atuais. É muito difícil atacar a agenda fiscal item por item. Cada item é protegido por um grupo organizado, enquanto o interesse difuso, agregado da sociedade, não se organiza. Por isso, o resultado é disfuncional. Se nada for feito, isso vai provocar inflação. É como tratamos essa questão a vida toda. A da PEC do gasto tende a criar uma restrição dura que fará com que a limitação do gasto interfira na vida de todo mundo, mas sem bater na inflação. Com isso você engessa o Estado brasileiro. A ideia é provocar um interesse na sociedade a favor do ajuste fiscal. Trata-se de explicitar um conflito que está implícito.

O Financista: O Congresso aprovará a reforma da Previdência?

Pessôa: Acho que será aprovada. Era um tema absolutamente tabu que está andando rápido. Ainda não estão claros os parâmetros e a velocidade de transição. É possível que seja feita em várias etapas. Creio que o princípio da idade mínima será aprovado. Provavelmente não será neste ano.

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