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Para Alberto Aggio, origem da crise está no modelo adotado por Dilma

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Estamos num percurso complicado e complexo, diz Alberto Aggio

Ao fazer um balanço do ano e das perspectivas para 2017 a pedido do Portal do PPS, o professor de História e diretor da FAP (Fundação Astrojildo Pereira), Alberto Aggio, entende que a origem da grave crise econômica, política, ética e institucional que o País atravessa não está no governo de transição do presidente Michel Temer, mas no modelo adotado pela ex-presidente Dilma Rousseff, afastada do cargo pelo processo de impeachment que se arrastou por oito meses.

Para o historiador, Dilma optou por um “projeto econômico ultrapassado e de perpetuação de poder sustentado na corrupção” que resultou na perda de confiança do governo e desembocou nas manifestações pró-impeachment pelas ruas do País, ainda em 2015.

O principal objetivo a ser atingido pelo governo Temer, na sua avaliação, é o de “rearranjar o país” para 2018 e realizar as reformas para a retomada da economia. Aggio diz também que o governo de transição, como o anterior, sofre de um crise ética e está refém do “velho patrimonialismo pelo qual multidões saíram às ruas desde 2013”.

No entanto, o professor considera que o atual governo “é legitimamente constitucional e demonstra capacidade de realizar os ajustes” que o País precisa. Sobre 2017, Aggio projeta um ano com tantas turbulências como foi 2016. Veja abaixo.

Origem da crise

Quem argumenta que a crise existente hoje no Brasil tem como sua principal razão o governo de Michel Temer parece que viveu fora dele, pelo menos, nos últimos 10 anos. Desconhece o que se passou e o que se passa aqui. A crise e sua profundidade aguda – a ponto de até alguns dizerem que se nós não fizermos nada, nosso caminho será muito parecido ou pior do que o da Grécia –, derivam dos descaminhos adotados na economia e na política pelos governos petistas, especialmente pelo de Dilma Rousseff.

Projeto ultrapassado

Quando tudo já indicava que um projeto de tipo nacional-desenvolvimentista, com o Estado, nucleando as iniciativas e áreas de investimento de recursos públicos, intimamente vinculado a capitais nacionais (os chamados “campeões nacionais” do petismo) e internacionais, era um projeto já ultrapassado frente aos ditames da globalização e, em sua obrigatória seletividade, nefasto a um desenvolvimento mais equilibrado e competitivo da nossa economia, a ex-presidente Dilma fez uma escolha fatal que gerou a crise em que nos metemos.

Corrupção

Agregada a essa crise econômica, as revelações de um sistema mafioso de poder, sustentando nível de corrupção de recursos públicos jamais vistos, encheu de indignação uma sociedade cada vez mais informada e ela desceu às ruas. O projeto de Dilma e do PT se tornaria então insustentável e seu principal aliado, o PMDB, de Michel Temer, resolveu pular fora do barco.

Manifestações

Multidões nas ruas passaram a demandar o impeachment de Dilma e gradativamente o PMDB, que havia contribuído (e muito) com a sua eleição, foi abandonando o governo. Temer foi eleito legitimamente junto com Dilma e, portanto, não é verdade que ele não teve voto algum. Talvez se possa dizer mesmo que foi o PMDB que elegeu e reelegeu Dilma. Reelegeu, tomou posse e governou, como fazia no período anterior; mas, já dava mostras de insatisfação com as orientações da ex-presidente.

Impeachment

Após o impeachment e a assunção definitiva de Michel Temer, o país pôde começar a se reorganizar. Mas, os déficits e as disfunções acumuladas durante os últimos governos revelaram-se de tal monta que se tornou cada vez mais evidente que a travessia até bom porto, com a recuperação da economia e o retorno ao diálogo saudável entre as forças políticas, seria cheia de obstáculos e necessitaria de paciência e sobriedade. É nisso que estamos nesse final de 2016 e, provavelmente, será o que irá perdurar em 2017.

Governo de transição

O de Temer é um governo de transição cujo objetivo central é rearranjar o país para se chegar a 2018. É a tal travessia, pinguela, corda-bamba ou seja lá o nome que se dê. Para realizar esse objetivo, deve fazer reformas, e algumas ele já está fazendo e o Congresso tem aprovado, com mudanças maiores ou menores. A base parlamentar é essencial para Temer e configura-se seu principal ativo político.

Crise ética

Mas a crise ética que vem do governo petista também está presente nesse governo de transição. A composição do pessoal governante do Executivo vem apresentando diversos problemas ao governo em razão da trajetória anterior do seu “núcleo duro”, quase todo ele comprometido com problemas de corrupção que foram levantados pela operação Lava-Jato, dentre outras. Diversos ministros tiveram que ser substituídos, evidenciando que o problema é mais grave e profundo: a resiliência do velho patrimonialismo a solapar a res republica, pelo qual multidões saíram às ruas desde 2013. Este é um déficit que o governo Temer não conseguiu superar e que se configura como seu maior problema. As manifestações massivas de rua que têm ocorrido esse ano atacaram esse problema. Aquelas que se voltam a combater aspectos das reformas que o governo está colocando em marcha foram pouco massivas e, regra geral, descambaram para a violência. O que é negativo para o debate em torno das reformas, que não têm consenso garantido, nem dentro da base governista.

Retomada do crescimento

O governo Temer é legitimamente constitucional e demonstra capacidade de realizar os ajustes necessários para que se retome o crescimento. Talvez isso não ocorra com a velocidade que todos esperamos, mas parece não haver outro caminho. Mas esse governo (e nenhum outro) pode dar as costas à necessidade de transparência e lisura na administração pública, em defesa do que é patrimônio de todos. O país mudou e contesta com vigor a privatização do Estado, seja ela de que natureza for. E esse é um embate de natureza estrutural que está apenas começando.

2017

Não parece ser um ano com menores turbulências do que foi o de 2016. Estamos num percurso complicado e complexo. Por ora não há nem sarneização nem dilmização de Temer e “Diretas Já” tem a ver com outro tempo da história do Brasil; só faz sentido na cabeça de passadistas que se recusam a aceitar que a sociedade brasileira já é outra. A partir de uma posição de intransigência democrática e republicana, o país precisa se unir e buscar um novo horizonte para realizar essa travessia.

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