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Cristovam Buarque: Russo

Aos 69 anos faleceu Osvaldo Russo, o homem que deu nome a cada menino e menina que viviam nas ruas de nossas cidades em 1995. Antes de Osvaldo Russo, eles eram meninos na rua, pivetes, sem nomes. Naquele ano, ele era o secretário para Assuntos Sociais do GDF e aceitou acumular a direção da nova Secretaria das Crianças.

Sua primeira tarefa nessa função foi identificar cada uma das crianças que viviam na rua. Depois de cuidadosa pesquisa, foram identificadas 870 crianças e adolescentes desligados de suas famílias, em caráter permanente ou de forma ocasional. A partir daí, eles foram registrados com nomes e dados pessoais; passaram a existir com personalidade própria. Pela primeira vez, no Brasil, um governador ou prefeito passou a dispor, em seu computador, dos dados de cada menino e menina de rua. Sobre essa lista, o secretário e o governador passaram a executar o cuidadoso trabalho de levar cada um desses meninos e meninas da rua para um lar. Percebeu-se que a maioria deles tinha família disposta a recebê-lo de volta.

Muitas vezes, pessoalmente, Osvaldo Russo convencia as famílias a receberem seus filhos de volta. Algumas se alegravam com o reencontro, outras diziam não ter condições econômicas. Nesses casos, o governo oferecia uma Bolsa Escola, programa recém-criado no DF, com a condição de a criança voltar à família e frequentar a escola. Cada secretário, o governador e a sociedade passaram a se envolver indicando meninos vistos nas ruas. Russo, às vezes, pessoalmente, inclusive, nas madrugadas, fazia a abordagem e, depois, buscava os pais, um tio, um padrinho ou uma pessoa solidária disposta a adotar a criança.

Hoje, muitas dessas crianças são homens e mulheres cujo sucesso foi construído graças ao trabalho de Osvaldo Russo. E esse trabalho começou com o gesto simples de personalizar cada criança que deixava de ser apenas genericamente “menino de rua” e passava a ser Pedro, João, Luísa. A ação continuou graças à competência do estatístico e técnico Russo, na gestão do programa de abrigar as crianças dentro também do programa “Não dê Esmola, Dê Cidadania”, concebido por ele. Em poucos meses, raros meninos ainda continuavam nas ruas, todos acima de 16 anos. Para esses, foi construído um abrigo onde iriam os que aceitassem ficar estudando sem direito à rua. A lei não permitia levá-los contra a vontade, mas queríamos conservá-los na casa. Mas a Justiça não permitia.

Uma manhã, Russo e o governador se reuniram com um juiz de menores e perguntaram a ele por que o prefeito pode manter seus próprios filhos fora das ruas compulsoriamente e não pode manter compulsoriamente protegidos os filhos sem pais que vivem nas ruas. O juiz disse que isso seria um crime, porque o prefeito não tem o poder familiar. O governador e o secretário responderam: “O senhor devia nos prender, porque estamos há quase dois anos no governo e ainda há meninos na rua. Se prendessem prefeitos por abandono dos meninos na rua, logo o problema seria resolvido em todo o Brasil”.

Esse era o radicalismo comprometido do Osvaldo Russo. Ele fez sua parte graças ao seu trabalho e, em pouco tempo, a paisagem urbana do DF se transformou: sem meninos na rua. Russo era um comunista, no que há de melhor nesse termo. Quando o mundo mudou e o PCB perdeu sintonia com o espírito daquele tempo, ele ajudou a criar o PPS, do qual foi o primeiro presidente e sempre dizia: “Somos pequenos no tamanho, mas grandes na ousadia”. Quando lhe pareceu que esse partido perdia compromissos com as transformações sociais, ele saiu e foi para o PT, onde sentiu-se confortável ideologicamente até o fim da terça-feira, quando a morte o surpreendeu saindo da sala de cirurgia.

Foi o fim de uma vida comprometida socialmente, militante politicamente e bem vivida existencialmente. Ele era fiel às causas pelas quais lutava: fazer um país sem meninos na rua, todos na escola; um país onde o território servisse a todos e não apenas a poucos latifundiários. Ele morreu, mas os meninos aos quais ele deu nomes e tirou das ruas hoje são grandes e adiante os ideais dele, não importa em que partido.

E nós, seus amigos e companheiros, levaremos adiante, com saudades de seu sorriso, de sua firmeza e até da contundência como nos criticava quando lhe parecia necessário por causa de discordâncias. Dele fico com as lembranças das lutas que fizemos juntos, dos sonhos que sonhamos juntos e com esperança do futuro em que no Brasil os filhos dos pobres estarão nas mesmas escolas que os filhos dos ricos.Valeu, companheiro Osvaldo Russo. Não esqueceremos, nem abandonaremos a luta. (Correio Braziliense – 14/03/2017)

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