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Igualdade Racial 23 debate dificuldades enfrentadas pelos negros brasileiros

Sandro Egues

O encontro debateu a Década Internacional de Afrodescendentes da ONU

O Coletivo Igualdade Racial 23, do PPS, promoveu nesta segunda-feira (3) na Câmara dos Deputados debate sobre a Década Internacional de Afrodescendentes (2015-2024) instituída pela ONU (Organização das Nações Unidas). No evento, integrantes do coletivo e representantes da sociedade civil e demais organizações analisaram o significado da década para os negros que residem no Brasil.

Os palestrantes afirmaram, entre outros pontos, que o preconceito ainda é bastante elevado na sociedade e que o Brasil ainda precisa avançar muito na luta contra o racismo que atinge milhares de brasileiros. O coordenador do coletivo, Sionei Leão, destacou, ao abrir o evento, o principal propósito do movimento.

“Uma vez, ao cobrir a visita do presidente israelense Shimon Peres, ouvi ele dizendo que otimistas e pessimistas morrem do mesmo jeito, mas vivem de maneira diferente. Prefiro ser otimista. É bom dizer que estamos aqui comungando do mesmo ideal, o combate ao racismo. Tenho uma grande expectativa de que o Coletivo cresça na sociedade. Precisamos falar mais da África, por exemplo.  Hoje se conhece muito pouco sobre a real história daquele continente. É preciso ser otimista, porque houveram pessoas que deram a vida para estarmos aqui. Essa luta permanece no Brasil e em outros lugares do mundo. Daí a importância de falarmos profundamente da África”, defendeu.

Justiça e igualdade

A representante da ONU, Ângela Pires Terto, explicou o significado da Década Internacional de Afrodescendentes e disse que o projeto é um desdobramento de várias ações desempenhadas por organizações da sociedade civil e governamentais. E destacou que possui três vertentes como o reconhecimento, a justiça e o desenvolvimento das culturas afrodescendentes.

“Ainda hoje os afrodescendentes, não só no Brasil, mas em todo mundo, continuam marginalizados e excluídos do exercício de seus direitos fundamentais. Por isso a Década tem alguns objetivos específicos, como reforçar a adoção de medidas e cooperação para que os negros possam desfrutar e participar em igualdade em todo o âmbito da sociedade”, disse.

Cotas raciais

Já o professor de sociologia da UnB (Universidade de Brasília), Ivair Alves dos Santos, alertou para a necessidade de reforçar a fiscalização na utilização das cotas raciais em concursos públicos. Para ele, muitos negros são boicotados e injustiçados por bancas examinadoras que, muitas vezes, optam por pessoas que não possuem o direito. Ele também reforçou a necessidade de se ampliar o conhecimento sobre a África, principalmente junto ao ensino brasileiro. Para ele, o continente não pode ser reduzido à “capoeira e ao candomblé”.

“Há um problema, o controle contra fraudes de ações afirmativas no País. Com os concursos, a coisa ficou escancarada. Não tem posicionamento do governo e monitoramento dos concursos no que tange a esse aspecto. É preciso debater melhor esse controle. Muitos negros estão sendo boicotados. Além disso, os livros didáticos confundem hábitos afro-brasileiros com a África. Os livros didáticos só falam de capoeira e candomblé, mas da África não. Eles não traduzem a realidade. É preciso ter clareza sobre isso e fazer uma crítica profunda”, afirmou.

Cultura e violência

O coordenador de Mobilização da Secretaria da Cidadania e da Diversidade Cultural do Ministério da Cultura, Jorge Freitas, falou sobre os trabalhos desempenhados pela Pasta que podem contribuir com a Década e citou o programa “Cultura Viva” e o lançamento de um prêmio que vai ter como base o mapa da violência. O objetivo é reconhecer atos de indivíduos e coletivos que contribuam com a comunidade.

“Precisou que o Ministério pensasse em um programa para criar um mapa. O Cultura Viva fez isso e consolidou manifestações culturais ligadas aos negros brasileiros como o maracatu, o frevo, o samba de roda, entre outras. Além disso, a nova gestão do Ministério, sensibilizado com o mapa da violência, vai lançar uma premiação baseada em ações concretas protagonizadas pelos jovens negros”, adiantou.

Racismo e desigualdade

A secretária para as  Relações Étnico-Raciais do Ministério da Educação, Raquel Dias, reforçou que a luta contra o racismo e a desigualdade deve ser diária e não pode ser lembrada apenas no Dia da Consciência Negra, comemorado em 20 de Novembro.

“É preciso executar ações. É mais que uma semana, mais que um evento. É preciso fazer com que os jovens se vejam nos livros e na mídia. Precisam se perceber nas teleaulas e nos currículos escolares. Isso hoje não acontece. Não podemos esquecer os Dom Quixotes que se encantam com a pauta [da igualdade racial] e enfrentam um sistema educacional arcaico. Não podemos aceitar uma educação que não nos enxerga e que nos inviabiliza”, criticou.

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