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João Batista de Andrade diz que País “precisa de uma política cultural livre”

Acácio Pinheiro/Minc

Minha luta era para blindar o MinC, afirma o cineasta em entrevista ao jornal "O Globo"

Em entrevista ao jornal “O Globo” (veja abaixo), o cineasta João Batista de Andrade fala do motivo do pedido de demissão do cargo de ministro interino da Cultura, da sua luta para blindar o MinC (Ministério da Cultura) e defende que o Brasil “precisa de uma política cultural livre”.

‘Foi o governo que quebrou o acordo’

Ao pedir desligamento do cargo, ministro da Cultura diz que Temer descumpriu combinado ao ignorar indicação da pasta para o comando da Ancine; “minha luta era para blindar o MinC. O Brasil precisa de uma política cultural livre”

André Miranda – O Globo

O cineasta João Batista de Andrade credita ao próprio governo a mais recente crise que se abateu sobre o Ministério da Cultura — pasta que, na gestão de Michel Temer, chegou a ser brevemente extinta, mas retornou para ter dois titulares, Marcelo Calero e Roberto Freire, que deixaram seus cargos fazendo críticas ao presidente. Ministro interino desde a saída de Freire, em maio, Batista de Andrade, antes secretário-executivo da pasta, enviou ontem carta a Temer em que declara “seu desinteresse em ser efetivado” na função. Na prática, o cineasta ficará no MinC até o presidente, que está em viagem à Rússia, indicar um substituto.

Ao GLOBO, Batista de Andrade aponta três motivos para sua decisão: os cortes orçamentários, o esvaziamento do Fundo Nacional de Cultura e o que ele chama de “desrespeito” com as indicações do MinC para a diretoria da Agência Nacional do Cinema (Ancine). O cineasta afirma que o governo quebrou um acordo feito com o ministério ao não aceitar o nome da produtora Debora Ivanov como presidente da Ancine.

O que motivou o senhor a enviar a carta avisando que não continuaria no governo?

Já venho pensando há algum tempo na minha retirada. Na verdade, desde a saída do Roberto Freire. Mas eu não podia deixar o ministério sem ministro e sem secretário-executivo. Então fiquei. Mas fui começando a ver o que era o MinC. A pasta tem um orçamento cada vez menor, é mesquinho para suas atividades. Um pouco antes de eu assumir, houve um corte de 43%. Outro dado é que o Fundo Nacional de Cultura, que no passado já teve R$ 500 milhões em conta, foi entregue ao Roberto com R$ 50 milhões. E sabe quanto tem para este ano? Zero. Nenhum centavo. O MinC não permite a sobrevida do ministério nem para tocar a máquina. E tudo isso em meio ao desrespeito com as decisões do MinC, como aconteceu com a Ancine. Qual o papel de um ministro numa situação dessas?

Então a indicação de Debora Ivanov como diretora-presidente da Ancine, feita pelo senhor na semana passada, não foi aceita pelo governo?

Não tive nem resposta, não houve conversa comigo. Mas o próprio Palácio do Planalto se manifestou através da imprensa que seu indicado seria o Sérgio Sá Leitão. Depois, indicaram a Fernanda Farah para uma diretoria da Ancine sem passar pelo MinC. Para mim foi a gota d”água.

Mas o senhor não teria que conversar com o presidente antes de fazer suas indicações?

Desde que entrei no governo como secretário-executivo, comecei a trabalhar na busca de nomes para a Ancine. Eram duas vagas, uma para diretor e outra para diretor-presidente. Eu me reuni com as pessoas do cinema, em busca de nomes de consenso. Nossa ideia era indicar pessoas que todo o setor apoiasse, como a Debora. Nesse período, o Palácio resolveu indicar para o Roberto Freire o nome do Sérgio Sá Leitão. Não tenho nada contra ele, mas avisei que não estava condizente com o trabalho que vínhamos fazendo. Mas o Roberto achou que deveríamos aceitar porque é um governo de coalização. Então foi feito um acordo: aceitaríamos a indicação, mas o MinC é que apontaria o presidente da Ancine. Isso foi comunicado até para o próprio Sérgio.

Mas, antes da saída de Freire, o seu nome chegou a ser anunciado como presidente da Ancine.

Sim. Eu não queria ir para a Ancine, falei isso para o Roberto, mas ele insistiu muito. Acabei aceitando e, dentro do acordo que tínhamos feito, fui indicado para a presidência da agência, com apoio do setor. Quando o Roberto saiu, aquilo passou a não fazer mais sentido. Eu era secretário-executivo, não tinha como ser ministro interino e presidente da Ancine. Decidi ficar no MinC para não deixar a pasta vazia. Voltamos então a buscar um nome de consenso, e surgiu a Debora. Diante do acordo que tínhamos feito, a indiquei para a presidência. Mas não foi levado em consideração. Foi o governo que quebrou o acordo.

O nome de Sá Leitão na presidência da Ancine não foi considerado pelo MinC? Há resistência?

Conhecia muito mal o Sérgio, ouvia falar um pouco e sabia de algumas queixas que parte do cinema carioca tem contra ele. Mas o que nos motivou é que ele não era o nome que vinha sendo costurado pelo MinC junto ao setor. Foi uma indicação do Palácio do Planalto.

O senhor fica até quando no MinC?

Mandei a carta para o Palácio, para os deixar à vontade, para dizer que vou esperar a troca. Agora a decisão é do Palácio. Fiquei um pouco enjoado com esse carrossel de nomes que tem saído na imprensa para ocupar o cargo. Não vim para cá atrás de cargos, vim para fazer política cultural.

Muita gente o criticou por ir para um governo que travou batalhas com o setor cultural. O senhor se arrepende de ter aceitado o cargo?

Não me arrependo de nada. As pessoas dizem que isso é uma ditadura, mas nunca vi ditadura em que o presidente é obrigado a depor, tem processo. Tenho uma formação de esquerda, mas tenho uma visão de que nem sempre se pode escolher o campo de batalha e a arma. Minha luta era para blindar o MinC. O Brasil precisa de uma política cultural livre.

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