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Paulo Guedes: Túnel do tempo

O brasileiro não é geneticamente corrupto. Não dependemos de notáveis avanços científicos em engenharia genética para reduzir o grau de corrupção no país. Como evolucionista, lembrando que Darwin leu Malthus, e não o contrário como se supõe, acredito na endogeneidade da moral e dos costumes, além do instinto e aquém da razão. A moralidade se submete aos mesmos processos seletivos de variação e adaptação para sobrevivência e proliferação de populações humanas. É, pois, evidente que há uma explicação sistêmica para o enorme grau de corrupção e violência no país. A corrupção endêmica, as desigualdades sociais e o quadro de violência resultam das disfunções do Estado brasileiro, da baixa qualidade de nossos governos. Os filhos dos excluídos da sociedade industrial do século XX serão os excluídos na sociedade do conhecimento do século XXI.

A hipertrofia do Estado empresarial explica a orgia da corrupção. A atrofia do Estado na área social e a ausência de uma ação descentralizada em educação, justiça, segurança, saúde e outras funções clássicas do governo resultaram na persistência das desigualdades abissais e do quadro de violência. A desigualdade de oportunidades e a ausência da lei e da ordem permitem e estimulam essa tragédia social. Acelerar privatizações para reduzir a dívida pública libera para investimentos em saúde e educação recursos antes usados para pagamento de juros. Presidente sofre impeachment em meio a operação “mãos sujas”. Armas do Exército são fornecidas a traficantes.

Parte dos meliantes pertence aos quadros da polícia. Favelados não conseguem regularizar títulos de propriedade de imóveis. Deputados “anões” fazem farra com Orçamento da União. Governos estaduais promovem escândalos dos precatórios. Escritórios privados negociam verbas públicas. Estatais se envolvem em negócios escusos com fornecedores e aliados estratégicos. Rombos em bancos estaduais e municipais e em fundos de pensão estatais ocorrem rotineiramente. Empréstimos oficiais, tarifas favoráveis e obras públicas são vorazmente disputados por corruptores em busca de vantagens extramercado. Sem uma radical reforma do Estado não há voluntarismo ético que possa reverter esse quadro. Erramos bastante, pois este meu artigo foi publicado há 20 anos. (O Globo – 15/01/2018)

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