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Claudia Safatle: Mercado opera na escuridão da política

A atividade econômica melhora e o país volta a crescer, ainda de forma modesta e sem a expansão relevante dos investimentos. O quadro político, no entanto, mesmo com a eventual saída do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva do páreo eleitoral, continua incerto. A informação mais notável da pesquisa Datafolha, divulgada na quarta-feira, é que os eleitores pouco se movimentaram.

Depois de condenado pelo Tribunal Regional Federal (TRF) da 4ª Região, Lula permanece com 37% da intenção de voto. Jair Bolsonaro, sem Lula, lidera as pesquisas, mas estacionou em 18%. Jacques Wagner, possível candidato do PT com o apoio de Lula, aparece com somente 2% e quatro nomes disputam o segundo lugar: Marina Silva, da Rede (13%), Ciro Gomes, do PDT (10%) e Geraldo Alckmin, do PSDB (8%), que está empatado com o apresentador de TV Luciano Huck, sem partido, cuja candidatura não está definida.

A primeira pesquisa após a condenação de Lula a 12 anos e um mês de prisão, portanto, não atestou a viabilidade de um candidato de centro, simpático a uma agenda de reformas, como espera e aposta o mercado. Henrique Meirelles, ministro da Fazenda, depois de aparecer no programa de TV do seu partido, o PSD, continua com 1%. Se não crescer aos olhos do eleitorado até o fim de março, Meirelles deve sair do jogo.

Outra informação que contrariou as expectativas do mercado refere-se a Huck que, ao empatar com Alckmin, não deu mostras de que, se decidir ser candidato, terá uma “largada arrasadora”. O mesmo pode ser dito e Joaquim Barbosa, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, que é, assim como Huck, um “outsider” da política e também não tem sua participação no pleito de outubro definida.

“A pesquisa Datafolha é uma coleção das novidades que não se confirmaram”, disse uma fonte do mercado. Acreditava-se que com Lula fora da disputa, tudo estaria resolvido. Podados os extremos – sem Lula, a candidatura Bolsonaro murcharia -, o espaço seria tomado por uma opção do centro. Não está nada resolvido. E não é muito prudente considerar que o ex-presidente Lula já está totalmente fora do páreo. “Aqui, coisas estranhas acontecem. Alguém imaginaria que Dilma Rousseff sofreria impeachment, mas não perderia seus direitos políticos?”, comentou um economista. Ou seja, é difícil, mas algo inesperado poderia trazer Lula de volta à disputa.

O quadro político, porém, poderá continuar incerto até muito próximo das eleições e produzir intensas volatilidades nos preços dos ativos financeiros. Uma repetição do que ocorreu em 2002 – a campanha eleitoral acirrou os ânimos do mercado e levou o dólar a R$ 4, os juros a 25% ao ano e a inflação para 12,5% – no entanto, é uma hipótese remota. “Para ter uma piora nessas proporções o cenário eleitoral tem que estar em uma direção muito ruim”, comentou uma outra fonte do mercado.

Está em jogo, nas eleições deste ano, o papel do Estado no destino do país. Em um ano e nove meses da gestão Temer, foram tomadas medidas importantes para reduzir o desequilíbrio das finanças públicas. Aprovou-se o teto para o gasto público, o fim da Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) – que despejou, via BNDES, uma montanha de recursos subsidiados ao setor privado – e, tão importante quanto a criação da TLP (Taxa de Longo Prazo, que substitui a TJLP), foi o enxugamento do “funding” do BNDES com recursos da União.

Entre 2016 e 2017, o banco devolveu R$ 168,7 bilhões antecipadamente ao Tesouro Nacional. Este ano devem ser devolvidos mais R$ 130 bilhões, perfazendo um total de R$ 298,7 bilhões. Com isso, o BNDES fica com menos da metade dos recursos emprestados pelo Tesouro durante o governo do PT, e a dívida do setor público cai na mesma proporção.

A contenção da política de crédito público, em uma substancial inversão do que foi feito na gestão do PT, já se revelou nas estatísticas. Pela primeira vez desde 2007, o conjunto dos bancos federais teve sua participação no mercado de crédito reduzida de 56% para 54% entre 2016 e 2017. Há 11 anos, as instituições oficiais respondiam por cerca de 34% do crédito total da economia.

Os bancos privados aumentaram a sua fatia de mercado, também pela primeira vez desde então, de 44,3% em 2016 para 45,8% no ano passado.

A encrenca fiscal não está resolvida. O cumprimento do teto do gasto público depende da aprovação da reforma da Previdência e de providências para frear o aumento da folha de salários do funcionalismo público. O endividamento do setor público continua em trajetória crescente. A dívida líquida atingiu R$ 3,4 trilhões, equivalente a 51,6% do PIB, com aumento de 5,4 pontos do PIB sobre o resultado do ano anterior. A dívida bruta (que desconta as reservas cambiais) chegou a R$ 4,85 trilhões – ou 74% do PIB, crescimento de 4,1 ponto do PIB sobre 2016.

O resultado das contas públicas de 2017 foram melhores do que poderiam ser. Para uma meta de déficit primário de até R$ 163,1 bilhões, a conta consolidada fechou em um déficit de R$ 110,6 bilhões. Isso, porém, foi circunstancial e penalizou por demais o investimento público, despesa que está no osso.

Segundo dados do Tesouro Nacional, o investimento que chegou a 1,34% do PIB em 2014, caiu para 0,69% do PIB em 2017, o menor dos últimos dez anos.

A inflação está baixa, os juros podem cair mais e o crescimento voltou. O grau de incertezas na área política, contudo, ainda é grande e as conquistas macroeconômicas não estarão garantidas, se as lideranças políticas não se conscientizarem desse fato.

Até o momento o mercado aposta em um bom desfecho, na sua perspectiva, das eleições de outubro, com a vitória de um candidato de centro que prossiga nas reformas econômicas para sustentar o crescimento nos próximos anos. Assim como o mercado internacional também acalenta o melhor dos mundos, com o quadro de crescimento mundial sincronizado, farta liquidez e a normalização suave das políticas monetárias nos EUA e na Europa. (Valor Econômico – 02/02/2018)

Claudia Safatle é diretora adjunta de Redação e escreve às sextas-feiras – E-mail: claudia.safatle@valor.com.br

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