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Roberto Freire: O legado a defender

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O discurso dos “intervencionistas” se baseia na tentativa de apagar o fato de que houve uma ditadura militar no Brasil.

A censura, as cassações, as torturas e assassinatos não passariam de propaganda vermelha.

Os governos dos generais teriam instaurado um paraíso que foi depois destruído por uma centro-esquerda sob hegemonia dos comunistas, que, fruto da Constituinte de 1988, criaram um país onde grassou a corrupção. Teria havido a consequente destruição do Éden.

Tamanha mistificação histórica – e manipulação – seria ridícula, se não houvesse quem acreditasse piamente nela. E se não houvesse as centrais de sua difusão, em particular nas redes sociais e nas novas mídias, em particular o Whatsapp.

Na Alemanha dos anos 30, os nazistas, Adolf Hitler à frente, conseguiram, em um país que aparentemente era possuidor de cultura política, ganhar os corações e as mentes da maioria da população para a culpabilidade dos judeus, dos comunistas, dos ciganos e dos homossexuais, e dos políticos em geral, por todas as mazelas do planeta.

Apresentavam, como solução para que a Alemanha fosse o Paraíso na Terra, o fim da democracia liberal, a ditadura do iluminado por Deus, ao lado da supremacia racial dos arianos.

Os intervencionistas atualizaram pouco o discurso nazifascista.

É a política como um todo as culpada até pela imprevisibilidade da estação das chuvas. Todos os políticos, propagam os intervencionistas, são corruptos. A política, como um todo, é nada mais nada menos do que a busca dos interesses mais escusos.

Os “técnicos”, leia-se, os militares, seriam a salvação da lavoura.

Tudo o mais pertenceria ao reino satânico do caos.

Tal discurso seria mera sandice se não fosse assumido por muitas pessoas, de diferentes regiões do país, de diferentes extratos sociais e de escolaridade diversa.

Parte dessa “aceitação” de valores tão xucros e primitivos se deve à incultura nacional.

Ainda somos um país de baixa escolaridade média, que lê pouco, com um nível de informação política que deixa muito a desejar, até se formos comparados a vizinhos latino-americanos.

Parte também se deve à reação ao lulopetismo, useiro e vezeiro na visão totalitária de que só havia um lado, o do bem, do progresso, da virtude, em que se perfilavam os seguidores de Lula e Dilma, contra todos os que não comungassem com o que pensavam, com seus propósitos e com o que faziam. Vive-se uma reação em contrário.

Outra parte, temos de ter a coragem de dizer, deve-se à criminalização da política, promovida por gente que se arvora arauta da integridade, da civilidade e porta-voz do bem, acima dos conflitos.

Precisamos cortar o mal pela raiz.

Intervencionismo é crime.

Há uma Constituição em vigor, amparada no funcionamento de instituições democráticas, dela decorrentes.

Os militares profissionalizaram-se ao longo das últimas décadas e assumiram plenamente suas funções constitucionais.

Os setores saudosistas da ditadura, dentre os fardados, existem como existem na sociedade em geral, mas são claramente minoritários e representam um pensamento marginal nas Forças Armadas, sem expressão na hierarquia.

Temos mazelas enormes em nosso país, mas podemos nos orgulhar, a nossa geração, de ter como grande legado a plena vigência das liberdades, há exatos 33 anos.

Os nossos problemas, por maiores e mais graves que sejam, só se resolvem no leito da democracia e da república, o único que permite a pluralidade de pensamento, a diversidade em todos os planos, a alternância de poder e a consequente liberdade para a busca da redução das desigualdades.

Essa é a compreensão que os intervencionistas querem destruir, a qualquer custo.

Não podemos subestimar o pensamento reacionário, antidemocrático.

A Alemanha dos anos 30 deve nos servir como exemplo de que a subestimação da besta-fera nazifascista foi o melhor caldo de cultura para que ela prosperasse.

Há também o ensinamento sobre a divisão dos defensores da democracia. Os comunistas, sob a orientação de Stálin, elegeram a socialdemocracia como inimiga, deixando que as hostes nazistas frutificassem, soltas.

Aos democratas de todos os quadrantes cabe-nos a tarefa de defender, com a veemência necessária, o legado da luta contra a ditadura militar, luta que, afinal, resultou no império das liberdades democráticas e das garantias individuais, um bem inestimável que temos de transmitir para nossos filhos e netos. (Diário do Poder – 02/06/2018)

Roberto Freire é presidente do PPS

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