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Maria Cristina Fernandes: As pinguelas do poder

O vídeo tem cinco segundos. Mostra um torcedor que observa um lance e, em seguida, tira a camisa da Argentina sob a qual aparece a da Croácia. Embaixo, vem a legenda “Partido Progressista torcendo”. A imagem ficou velha com a classificação argentina para as oitavas, o gesto, não. O vídeo circula nos grupos de dirigentes do PP em redes sociais. Explica não apenas a maior reviravolta das alianças eleitorais até aqui, a nova chapa dos Progressistas em São Paulo, como aquelas que ainda estão por vir.

O rompimento de aliança eleitoral com 48 h de vida tem, para a política, o mesmo sentido de um Supremo que manda prender num dia e soltar noutro. Ou de um governo que publica nomeação no “Diário Oficial” e, de madrugada, volta atrás. Se as instituições deixam de entregar, não se deve cobrar da política que lhes permeia que o faça.

As traições da temporada não se limitarão ao PP, mas seria decepcionante se o aliado que comandou o impeachment não as liderasse. Ao abandonar o governador e candidato à reeleição, Márcio França (PSB), aliado de primeira hora do ex-titular do cargo e pretendente tucano à Presidência, Geraldo Alckmin, o PP não apenas infla o balão do ex-prefeito João Doria (PSDB) como dissemina a insegurança entre os candidatos.

O movimento pendular do Centrão em direção ao pré-candidato do PDT é parte desse jogo. A insegurança de Ciro Gomes em relação ao PSB o leva a ficar mais dependente do Centrão e este, ao adular Doria, retroalimenta a insegurança do ex-ministro. Tudo pode acontecer até o fim de julho, prazo das convenções. Até nada. No limite, o vale tudo vai até o 15 de agosto do registro eleitoral.

O movimento que reacende as perspectivas de Doria vir a assumir a candidatura tucana à Presidência em dobradinha com o presidente da Fiesp, Paulo Skaf (MDB), pré-candidato ao governo do Estado, já foi ensaiado uma vez sob patrocínio de Michel Temer. Fracassou pelas trapalhadas em série do ex-prefeito, que engatou agenda ostensiva de viagens dentro e fora do país, abandonou uma gestão que nunca chegou, de fato, a assumir e explicitou sua condição de traidor.

Nenhum dos tropeços foi superado, mas Doria, ao assumir a candidatura ao governo estadual, fechou com o DEM, partiu para cima do PP e começou a tomar o PSDB pelas bordas. Desmontou a armação entre seu sucessor, Bruno Covas (PSDB) e Márcio França, e esperou Alckmin empoçar.

O presidente não observa de braços cruzados seus movimentos. Não se falou em outra coisa no seu encontro com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM) e o senador Aécio Neves (PSDB). Seu mais fiel aliado nesse enredo, Skaf, é beneficiário direto da ganância de Doria, mas valoriza seu passe exibindo o cortejo que lhe faz o deputado Jair Bolsonaro (PSL). A aproximação constrói outra pinguela para o futuro de Temer, que tem na perspectiva de delação do ex-deputado Eduardo Cunha (MDB) a principal espada sobre sua cabeça.

O desejo por um sucessor capaz de passar uma linha demarcatória que lhe redima na Lava-Jato, fica, no entanto, cada vez mais longe. Parece claro que não apenas o alheamento amazônico, como também a vantagem estreita que ameaça marcar a sucessão minarão a legitimidade com a qual o eleito poderia riscar o giz no chão.

Esses limites são os mesmos que hoje acendem luz amarela sobre os prognósticos otimistas de candidatos que propagam a perspectiva de uma lua de mel com o Congresso capaz de escoar um amplo programa de reformas. A nova legislatura não será apenas pouco renovada, como também ainda mais poderosa. Não apenas pelos recursos mais fartos à disposição dos partidos, como pelo inédito domínio parlamentar sobre órgãos de controle cujos mandatos extrapolam o do presidente – das agências reguladoras, ao TCU e Cade.

No comando deste Congresso, o bloco ainda não tem um candidato para chamar de seu. A opção Doria para ocupar o oceânico vácuo do centro ainda está inviabilizada pelo domínio de Alckmin não apenas sobre os convencionais do partido que preside como sobre seu caixa. Mas nada garante que o ex-governador prevalecerá se, até lá, não se mostrar viável. É esta insegurança que semeia nomes como o ex-ministro Nelson Jobim (MDB), cujo eleitorado hoje lotaria a fundação presidida pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Ao Centrão não interessam conspirações lideradas pelo PSDB. Por fim à hegemonia moral tucana sobre a centro-direita, tarefa na qual a Lava-Jato muito avançou, é condição para que o bloco assuma o giz e risque a linha do butim – passado e futuro.

O jogo ainda pode passar pelo PT de Luiz Inácio Lula da Silva, sob cujo governo o Centrão encorpou suas sesmarias. Tanto não descarta a reedição da parceria que até se arvora a declinar preferências sobre o nome para substituir o ex-presidente. Neste bolão, entre Jaques Wagner e Fernando Haddad, o ex-ministro dá de lavada no ex-prefeito. Bolsonaro tampouco é carta fora do baralho, não apenas pelas afinidades ideológicas como pela crença de que o deputado teria que beber de seu cantil pela sobrevida de suas tropas à secura de Brasília.

Na outra ponta está Marina Silva. A pré-candidata da Rede joga parada na aposta de que Ciro derreterá. Sua omissão no debate, frente à verborragia do ex-ministro, virou um ativo. Para se viabilizar, no entanto, Marina, que se recusa a se aproximar dos tubarões, terá que travar negociações com predadores de menor porte. Além de PPS, PHS e PMN, lançou pontes com o PROS, o maior dessa sopa de letrinhas, com 11 parlamentares. A ponte é feita pelo ex-deputado federal Maurício Rands, coordenador do programa de governo que herdou da parceria com Eduardo Campos em 2014, e hoje secretário na OEA.

Para garantir um minuto que seja na televisão, terá que arrumar discurso para defender uma aliança com o partido do governador reeleito de Tocantins, que acumula dezenas de processos civis e criminais. Ou ainda com uma legenda que se valeu de fundo partidário para comprar avião.

Alinhava seu discurso a partir da ocupação de cargos estratégicos. Os aliados terão direito a apresentar nomes, mas a prioridade seria de funcionários de carreira e a triagem se daria pelo currículo e folha corrida. Ergueu uma porteira. Talvez pela expectativa de que, desta vez, o eleitor estará menos preocupado com quem será o presidente do Banco Central do que da Funasa. Na temporada de reforço às pinguelas que marca a busca de aliados, Marina optou por não sobrecarregar a sua. Até o fim de outubro, só restará uma. (Valor Econômico – 28/06/2018)

Maria Cristina Fernandes é jornalista do Valor. Escreve às quintas-feiras – E-mail: mcristina.fernandes@valor.com.br

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