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Armando Castelar Pinheiro: Amlo, o México e o Brasil

O mundo está mudando. A população mundial está mais saudável, vivendo mais e ficando mais rica. A desigualdade de renda está em queda, fruto do rápido crescimento das economias emergentes da Ásia, mas também, em menor escala, do bom desempenho dos países africanos. Isso está mexendo com as pessoas, mas nem todas têm reagido com alegria. O nacionalismo e a xenofobia, por exemplo, estão em alta, ajudando a instigar uma assustadora guerra comercial.

E grande parte do eleitorado do Ocidente parece estar chateada e disposta a mudar “tudo isso que está aí”, o que tem favorecido políticos populistas, que ganharam eleições de significância global, como nos EUA e na Itália, por exemplo. E essa onda populista está longe de ter passado.

Esse pano de fundo alimentou a expectativa de um ressurgimento do populismo na América Latina. Porém, não foi o que se viu nas eleições legislativas na Argentina, no final do ano passado, nem nas eleições presidenciais deste ano no Chile e na Colômbia, em que os partidos de centro-direita levaram a melhor, defendendo reformas pró-mercado. No México, porém, foi diferente. A eleição domingo passado de Andrés Manuel López Obrador, ou Amlo, como é conhecido, foi para muitos a vitória do populismo.

Amlo ganhou a presidência com expressiva vantagem sobre seus concorrentes – 53,0% dos votos, contra 22,5% e 16,4% do segundo e do terceiro colocados, respectivamente. Além disso, seu partido Morena (Movimiento Regeneración Nacional), fundado há apenas seis anos, se tornou o principal partido da Câmara dos Deputados e do Senado, com 37,5% e 37,2% das cadeiras, respectivamente, devendo a coligação que apoia Amlo controlar as duas casas, permitindo-lhe aprovar novas leis, ainda que não mudar a constituição. De quebra, o Morena também ganhou cinco das nove eleições para governador.

É difícil prever o que a eleição de Amlo vai trazer para o México, além dessa sacolejada geral no seu sistema político. Olhando o que levou à sua vitória, identificamos três conjuntos de fatores, a partir dos quais podemos ter algumas pistas.

O primeiro é que os mexicanos também estão cheios de “tudo isso que está aí” e querendo mudanças. O que é “tudo isso que está aí” não é claro, mas parece incluir a elevada criminalidade, com um número crescente de assassinatos, que Amlo prometeu reduzir; um quadro de ampla corrupção, que Amlo prometeu extirpar; e os partidos tradicionais, que Amlo chama de a “máfia do poder”, que inclusive não teriam reagido à altura às “agressões” de Trump. Para alguns, também se inclui aí a elevada desigualdade de renda e as políticas “neoliberais” implantadas durante as últimas décadas por quadros treinados nos EUA. Amlo não disse como fará as mudanças acontecerem.

O segundo são promessas de mais gastos públicos. Amlo prometeu aumentar os benefícios da previdência social, subsidiar o preço dos alimentos e da gasolina, criar 3,5 milhões de vagas de aprendizes, investir pesadamente em infraestrutura e tornar o país autossuficiente na produção de alimentos. A questão é como conciliar isso com a promessa de não aumentar os impostos nem o déficit ou a dívida pública. Ele promete que conseguirá isso combatendo a corrupção, cortando o salário do funcionalismo, vendendo o avião presidencial e cortando outros luxos.

O terceiro fator foi Amlo ter caminhado para o centro do espectro político, fugindo da retórica mais nacionalista e de esquerda que adotou nas eleições anteriores, e que perdeu (2006 e 2012). Em um país com bons fundamentos macroeconômicos como o México, isso agradou a uma parte do eleitorado que antes temia votar nele.

As pesquisas pré-eleitorais mostraram que Amlo tornou-se popular entre as camadas mais educadas e ricas do eleitorado.

Por conta desse último fator, se compara a eleição de Amlo à de Lula em 2002, concluindo-se daí que ele deve adotar políticas que agradarão os empresários e o mercado financeiro. Isso seria facilitado por ele contar com maioria no Congresso, o petróleo estar em alta e os fundamentos econômicos do México serem melhores que os do Brasil em 2002. Não me parece óbvio que isso vá acontecer. Em especial, porque o quadro externo que Amlo encontrará pela frente será pior do que aquele com que Lula teve de lidar: ao invés de commodities em alta, teremos uma contínua redução da liquidez internacional, em meio a uma guerra comercial que afeta direta e significativamente o México.

Não é óbvio o que a vitória de Amlo diz sobre as próximas eleições brasileiras. Também há por aqui esse desejo de mudanças, de frustração com a falta de segurança, o alto nível de corrupção e a “máfia no poder”. Mas não há um candidato que represente essa mudança, nem há a perspectiva de renovação no Congresso e nos governos estaduais. Isso ajuda a explicar a elevada proporção de eleitores que pretendem votar em branco ou anular seu voto. Se isso se confirmar, seja diretamente, seja via uma grande abstinência, teremos um sério problema de legitimidade, que dificultará a adoção das reformas que o Brasil tanto precisa. (Valor Econômico – 06/07/2018)

Armando Castelar Pinheiro é coordenador de Economia Aplicada do Ibre/FGV e professor do IE/UFRJ. twitter: @ACastelar. Escreve mensalmente às sextas-feiras. As opiniões aqui contidas são exclusivamente do autor.

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