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Ana Carla Abrão: Gestão e educação

O Brasil gasta 6% do PIB em educação, mas a realidade é que nossas crianças vão à escola, mas pouco aprendem. Nossos jovens ricos frequentam as universidades públicas gratuitas e nossos jovens pobres ajudam a transferir recursos públicos para empresas privadas de ensino e adquirem um aprendizado que pouco lhes ajuda a enfrentar o desemprego. O resultado é a perpetuação das desigualdades e a limitação dos ganhos de produtividade e, portanto, do crescimento e da geração de emprego e renda. A miríade de programas e políticas voltadas à educação no Brasil começa pela Constituição, que vincula as receitas da União, Estados e municípios, a gastos com educação. Há ainda o Fundeb, o piso nacional do magistério, um ministério dedicado e um Fundo Nacional que poderiam indicar que o Brasil valoriza a educação.

Os resultados se mostram, contudo, descolados dessa enorme estrutura pública e dos grandes volumes de recursos, num reflexo direto da má alocação de tanto dinheiro. De concreto, focando na educação básica, temos índices vergonhosos de aprendizagem, milhões de professores sem qualificação e mal remunerados, escolas caindo aos pedaços, sindicatos ideológicos e violentos e alunos que terminam o ensino médio sem saber o mínimo. A consequência é um sistema que mostra que a prioridade que deveria ser dada à educação, na prática não existe. A cena do descaso se completa com as evidências de mau uso de verbas, desvios e superfaturamentos em contratos de merenda e transporte escolar, excesso de professores compensando um absenteísmo injustificável e falta de gestão e controle.

Além disso, ainda é o interesse político – e não o público – que domina as indicações para cargos de direção e a manutenção de escolas ociosas. A resistência em confrontar os sindicatos e o atendimento das bases eleitorais têm pesado mais do que a vontade de melhorar o ensino público. O baixo desempenho está vinculado ao atual modelo, com incentivos equivocados, captura por interesses corporativos e ineficiência na gestão dos gastos e dos investimentos. Temos mais professores do que precisamos – e a contrapartida disso é que remuneramos menos do que poderíamos e, certamente, menos do que deveríamos.

Ao remunerarmos mal, tornamos a carreira de professor pouco atrativa, levando à seleção de pessoas com baixa qualificação. Não formamos bem e não investimos em capacitação com o objetivo de melhorar o ensino (mas sim para garantir adicionais de salário). Não avaliamos os professores nem usamos ferramentas de gestão de pessoas que permitam que os melhores ganhem mais e os maus sejam substituídos. Não alocamos bons professores no ensino dos piores alunos, perpetuando a desigualdade que na partida já segrega os mais pobres.

Somos coniventes com um sistema que permite que professores faltem, sob o pretexto de que já ganham mal e precisam compensar acumulando outras ocupações que complementem seus salários – mas que os tiram de sala de aula. Permitimos que aqueles mais qualificados estejam à disposição ou em funções administrativas, submetendo nossos alunos a professores inexperientes e sem treinamento porque há milhares de outros que, embora tenham feito um concurso público para essa função, se negam a estar em sala de aula. Admitimos sindicatos que prestam um desserviço à educação, atacando prédios públicos em ações de vandalismo em defesa de pautas corporativistas que visam apenas à sua perpetuação – e nunca a melhora da qualidade do ensino ou mesmo a real valorização do professor.

Sim, temos alguns exemplos de excelência na educação em locais remotos e improváveis do nosso Brasil. A dificuldade em replicá-los País afora está na resistência em implantar modelos de gestão que enfrentem as corporações e os interesses políticos consolidados por anos de captura. Estamos em período eleitoral e o debate tem sido pautado pela economia. Justificável, tendo em vista a profundidade da crise que vivemos hoje, mas não suficiente se quisermos mudar o Brasil. Qualidade da educação pública tem de ser prioridade real, medida por resultados. Afinal, é aí que se assenta o futuro do nosso País. (O Estado de S. Paulo – 24/07/18)

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