CIDADANIA23

PORTAL NACIONAL

Carlos Andreazza: A maldição do plebiscito

Bolsonaro é um fenômeno eleitoral; agente novo neste arranjo político-eleitoral. Isso não significa que haja alguma novidade na dinâmica do jogo travado nesta eleição. Mais uma vez, embora sob a velha fantasia da disputa a presidente, vai-se às urnas para votar num plebiscito.

Tem sido assim desde 2006, ano da reeleição de Lula e o primeiro em que o Bolsa Família se expressou como ativo eleitoral, motor disparado pela máquina do Estado em prol de um projeto de poder e faca a partir da qual o mapa eleitoral se cindiria até a cristalização; a que fixou a porção eleitoral lulopetista, alicerce à projeção de que o candidato de Lula marcharia seguro até o segundo turno em 2018.

Desde 2006, vota-se a presidente para chancelar ou não o modelo de Estado apregoado pelo lulopetismo. Uma das consequências desse caráter plebiscitário, claro,é a expansão do sentimento antilulopetista, mas sobretudo o estabelecimento desse ânimo como o gatilho para formação de voto. Aqueles a favor do que executavam os petistas votaram pela continuidade.

Os contrários, mobilizados pela rejeição, no PSDB. Este, um voto politicamente precário, por falta de opção —o que se verifica na inexistência de quem tenha escolhido Alckmin, Serra ou Aécio pelo que propunham. O PSDB, porém, não entendeu. Avaliou que o lugar de receptáculo do voto antilulopetista seria para sempre seu apenas porque o ocupara historicamente — e, enquanto 60 mil brasileiros eram assassinados por ano, foi falar de parlamentarismo na TV.

Enquanto os tucanos afundavam na incompreensão do momento político,soberbos demais para notar a rebelião popular contra a agenda elitista, Bolsonaro encaixava seu trilho de ascensão. Eleito deputado federal, em 2010, com 120 mil votos, alavancou- se a ser o mais votado do Rio em 2014, com 465 mil votos. A explicação é simples: encarnara — organicamente — o antilulopetismo, batendo na corrupção do PT e denunciando os valores que o partido desdobrava.

Seu primeiro salto competitivo deu-se ali, ao tomar para si o espaço antilulopetista. Por que Bolsonaro é jogador nesta eleição e Alckmin, não? Porque conseguiu se inscrever no campo simbólico do plebiscito sobre o lulopetismo. Por isso escrevo que é um fenômeno eleitoral que não altera a natureza plebiscitária da eleição: porque controlou uma peça no tabuleiro, peça já existente, sem afetar a dinâmica do jogo.

Quem incrementou a dinâmica do plebiscito foi Lula, a estratégia de Lula: não mais uma consulta sobre o modelo de governo lulopetista, mas acerca da condição prisional do ex-presidente, se seria ou não um perseguido político.

De 2016, com o impeachment de Dilma e a derrota petista nas eleições municipais, saiu-se com a ideia de que o PT fora destruído, leitura equivocada cuja falha estava em considerar que a morte do partido, se havida, seria também a de Lula.

Para além da subestimação do lulopetismo, aquele Brasil de 2016 deixaria de existir logo, com a escalada do ativismo judicial jacobinista celebrado pela imprensa, exemplificado pelo súbito lava-jatismo seletivo de Janot e materializado no golpe dos flagrantes armados por Joesley.

Era a decretação pública, autorizada pelo STF, do processo de sindicalização das instituições por meio do qual procuradores se tornaram justiceiros. A consequência seria imediata: a criminalização da atividade política. Ali, pois, meados de2017,deram-se os dois movimentos que afinal definiriam o caráter da polarização deste próximo plebiscito presidencial.

O primeiro, a revitalização de Lula. A política chafurdada criara as condições para que ele concebesse a narrativa de vitimização. Se os partidos são organizações criminosas, e os políticos estão a serviço da corrupção, não terá sido uma injustiça o impeachment de Dilma? Se todos os políticos são bandidos, melhor será aquele com quem fui feliz. A população foi feliz com Lula. Ninguém lhe atribui a recessão que viria depois. A crise? Obra de Dilma e Temer.

É ali, a partir da debacle de Aécio, que arrastaria consigo o PSDB, e da paralisação do governo Temer, estigmatizado por denúncias ineptas, que Lula se recolocaria na mesa para dar as cartas. O outro movimento foi o segundo salto competitivo de Bolsonaro. Em 2017, ele já detinha o estandarte do antilulopetismo, e então viu diante de si,com a política na lama, a chance de incorporar também a figura anti-establishment, da qual se assenhoraria. É o que nos trouxe até aqui.

A sequência de forjas que cunhou as faces do novo plebiscito, o mais irracional, sobre o lulopetismo, e cuja temática não poderia ser mais pobre: mitologias redentoras, revanche contra revolta, modalidades de autoritarismo, combate à corrupção (longe de ser o maior problema) e desprezo à política. Aqui estamos. Para lá iremos. Parabéns. (O Globo – 02/10/2018)

Nenhum conteúdo relacionado

Deixe uma resposta