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Roberto Freire destaca artigo sobre a realidade das políticas identitárias

O presidente do PPS, Roberto Freire, usou sua conta no Twitter para destacar artigo de Vinícius Müller – Das identidades que nos separam aos valores que nos unem: Mark Lilla e seu liberalismo universal – publicado pelo “O Estado de S. Paulo (veja abaixo), nesta terça-feira (22), que foi citado pelo historiador Alberto Aggio no Facebook.

“Um excelente artigo para refletir. Embora fale da política nos USA, se baseia em realidade das políticas identitárias também presente entre nós. ‘Das identidades que nos separam aos valores que nos unem: Mark Lilla e seu liberalismo universal'”, escreveu Freire.

“Vinícius Müller nos brinda, nesta resenha, com uma excelente reflexão em torno da crítica de Mark Lilla a respeito do identitarismo que dominou a política do liberalismo norte-americano e que, dentre outros aspectos, resultou na derrota para Donald Trump. Um fragmento para estimular a leitura: “…a insistência na narrativa identitária estimula a formação de indivíduos que, ao olharem e valorizarem apenas as suas aparentes diferenças, pouco se voltam a descobrir os valores que nos trouxeram, juntos, até aqui. Com isso, causa mais repulsa do que empatia, o que apenas reforça seu ressentimento. Por isso prefere a resistência à proposta, a anti-política à política”. Vale a leitura”, recomendou Aggio na rede social.

O Portal do PPS também reproduz abaixo os outros dois artigos de Vinícius Müller sobre o tema.

Das identidades que nos separam aos valores que nos unem: Mark Lilla e seu liberalismo universal.

No terceiro e último artigo dedicado à obra e ao pensamento de Mark Lilla, Vinícius Müller escreve sobre “O progressista de ontem e o de amanhã”, obra mais recente do pensador americano. Lilla estará no Brasil em novembro para o Fronteiras do Pensamento.

Por Vinícius Müller

O que Franklin Delano Roosevelt e Ronald Reagan têm em comum? Além de terem sido presidentes dos Estados Unidos, o que mais os une? Um democrata, presidente do país entre 1933 e 1945, quando pouco antes do término da Segunda Grande Guerra faleceu. Outro republicano, ator de destaque intermediário em produções hollywoodianas, que governou o país entre 1981 e 1989, ano da queda do muro de Berlim. Na verdade, um olhar superficial nos revela que poucas coisas os aproximam.

Roosevelt enfrentou dois dos mais graves momentos do século XX, a Grande Depressão e a Segunda Guerra Mundial. Na primeira, em meio à crise considerada como a maior que o país já enfrentou e, por muitos, como a grande crise já experimentada pelo capitalismo, venceu a eleição com a proposta que entrou para a história como o New Deal. Seu plano, implementado nos primeiros anos de governo, previa uma ampla reformulação tanto da economia quanto do comportamento do Estado frente aos desafios imputados pelos efeitos da crise de 1929. Na contramão da tradição do país e de certos valores enraizados na sociedade, Roosevelt propôs a ampliação da participação estatal na economia, como regulador, como incentivador da demanda e como gerador de empregos, além de fornecedor de certos fundamentos mínimos ao bem estar social. Isso em um país de tradição liberal e de baixa tolerância com as intervenções estatais na economia e/ou na determinação de padrões de comportamento e de costumes. Por isso, gerou polêmicas e ódios que, mesmo menores do que os admiradores e eleitores (Roosevelt venceu quatro eleições seguidas – 1932, 1936, 1940 e 1944), foram suficientes para gerar pesado boicote por parte daqueles que o chamavam de socialista e ditador. Para além dos exageros de seus críticos, deixou também uma legítima controversa acerca dos resultados de seu programa de recuperação econômica e social, principalmente em relação à retomada do emprego no país. Se já não fosse suficiente para entrar no rol dos grandes presidentes da história norte-americana, Roosevelt ainda enfrentou a Segunda Grande Guerra, tendo sido fundamental para a formação da aliança entre seu país, a Inglaterra e a antiga União Soviética, responsável pela derrota do nazismo.

Já Ronald Reagan, republicano, assumiu a presidência em 1981 cercado pelo descrédito derivado da crise que o país vivenciara durante a década anterior. Crise esta que começara em 1970, com o abandono pelo país do acordo de Breton Woods e pela renúncia de Richard Nixon em 1974. Também pelas reviravoltas promovidas pelos choques do petróleo de 1974 e 1979, este último vinculado à revolução islâmica no Irã. Paralelamente, o fim da Guerra do Vietnã, ainda sob o governo Nixon, assim como a aproximação com a China e a assinatura de acordos voltados à diminuição das tensões com a URSS no ambiente da Guerra Fria, significava, para muitos, um atestado de fragilidade norte-americana ante a resiliência do bloco socialista. Mesmo com o choque dos juros de 1979 – e a sensível melhora na economia do país – a sensação mais comum no início da década de 80 apontava para a ‘derrota’ dos EUA na Guerra Fria e para a superação de sua liderança no mundo capitalista pelo Japão. O sucesso dos Jogos Olímpicos de Moscou em 1980, mesmo com a ausência da equipe norte-americana, parecia ser a prova final da derrocada do país.

Contudo, pouco mais de dois anos após a posse de Reagan, a sensação era oposta. A economia se recuperava, os Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1984, eram sucesso estrondoso e Gorbatchev, líder soviético, anunciava em 1985 suas reformas que, ao fim, significaram a queda do regime socialista no país. Os EUA ‘venciam’ a Guerra Fria, o que foi confirmado em 1989, poucos meses depois do fim do mandato de Reagan, pela queda do Muro de Berlim e pela ampliação, em escala mundial, do modelo norte-americano de democracia liberal associada à economia de mercado. Era a Globalização (neo) liberal ou o “Fim da história” de Francis Fukuyama. Mas, ao contrário de Roosevelt, Reagan foi mentor de uma proposta econômica que ampliava a abordagem liberal, diminua a presença do Estado e de seus gastos em bem estar e resgatava de modo quase que irrestrito a noção de individualismo, de empreendedorismo e de valorização do ‘self made man’. Ou seja, após cinco décadas do New Deal e de sua proposta de reconstrução do país a partir da redefinição do papel do Estado como condutor do desenvolvimento e da coesão social, Reagan resgatava a tradição liberal mais exaltada, valorizando o individualismo e a livre iniciativa como valores fundamentais daquilo que caracterizaria a trajetória do país.

Neste sentido e aparentemente, eram opostos. Mas, ambos, em suas versões particulares, só obtiveram sucesso porque ofereceram à sociedade uma narrativa e um projeto que, por motivos e caminhos diferentes, se associavam aos valores que compõe a história norte-americana. E, principalmente, a uma história que remete à formação de certo sentimento de coletividade. Roosevelt ecoava a solidariedade que estaria na origem dos colonos da Nova Inglaterra frente aos desafios de uma terra fria e inóspita. Já Reagan, na recusa que une os norte-americanos aos avanços e abusos do poder público em detrimento dos direitos individuais. Ou seja, por caminhos diversos, ambos apostaram em versões amparadas em uma narrativa que mais do que qualquer coisa, apelava àquilo que une, e não divide, a população do país.

Por outro lado, o fortalecimento de pautas e propostas que, ao contrário do que foi apresentado pelos dois ex-presidentes, mais separam do que unem os norte-americanos, estaria na origem da imensa incapacidade dos liberais do país em obter a simpatia de partes significativas da sociedade neste quarto inicial do século XXI. Assim entende o historiador da Universidade de Columbia Mark Lilla em sua obra “Os Progressistas de ontem e do amanhã” (Cia das Letras, 2018), que aponta, quase como uma denúncia, a incapacidade dos democratas (partido ao qual é associado) em propor alguma narrativa que resgate o sentido de unidade e não de separação da população do país. Para Lilla, este equívoco reside na opção por políticas identitárias e hipersensíveis feita pelos democratas em detrimento de uma outra, voltada aos valores fundamentais que deveriam ser defendidos pelos liberais. Ou seja, abdicaram de uma visão verdadeiramente política que dialogue com uma ampla tradição de defesa de igualdade de oportunidades e de direitos de todos os indivíduos pelo simples fato de que qualquer um é um cidadão. Por isso, são mais eficientes em criar polêmicas que servem ao ensimesmamento dos indivíduos em seus grupos identitários do que em vencer eleições.

Mais grave ainda, segundo Lilla, é a expansão da abordagem anti-política dos movimentos identitários em espaços que, em tese, deveriam ser universais. Tamanha expansão teria criado indivíduos que, ao olharem mais para si mesmo do que para os outros, se tornam ressentidos, assim como são incapazes de sequer perceber quais valores que levaram, ao longo da história do país, legítimas lideranças como Martin Luther King (e, porque não, Barack Obama?) a oferecer aquilo que realmente representaria o liberalismo norte-americano: uma cidadania amparada em direitos que qualquer norte-americano, independentemente de sua origem étnica e social, de sua condição econômica e de seus estilos e preferências, pudesse chamar de sua.

Em uma frase, tamanha sensibilidade e ensimesmamento, assim como as consequências pouco alvissareiras das (anti) políticas identitárias, são revelados por Lilla. Em resumo, “o paradoxo do liberalismo identitário é que ele paralisa a capacidade de pensar e agir em um sentido que realmente o levará a alcançar resultados que professa querer. É hipnotizado por símbolos: alcançar diversidade superficial nas organizações, recontar a história para focar em grupos marginais e mesmo minúsculos, inventar eufemismos inofensivos para descrever a realidade social, proteger jovens ouvidos e olhos, já acostumados a filmes de terror, de qualquer encontro perturbador com pontos de vista alternativos.” Ou seja, a insistência na narrativa identitária estimula a formação de indivíduos que, ao olharem e valorizarem apenas as suas aparentes diferenças, pouco se voltam a descobrir os valores que nos trouxeram, juntos, até aqui. Com isso, causa mais repulsa do que empatia, o que apenas reforça seu ressentimento. Por isso prefere a resistência à proposta, a anti-política à política. Por isso também não honra as lideranças que fizeram de suas posições e condições minoritárias trampolim para a defesa de uma política realmente inclusiva e cidadã. E por fim, mas não menos importante, não criam uma narrativa que identifique o coletivo, ou o que nos une. Por isso, ao contrário de Roosevelt e Reagan, não ganhará as eleições e, muito menos, marcará indelevelmente nossa história. (O Estado de S. Paulo – 22/10/2018)

Vinícius Müller é doutor em História Econômica pela USP e professor do Insper

Cabe aos traidores pedir perdão

Por Vinícius Müller

A grandeza da liderança é reconhecer que sua traição é verdadeira e seu arrependimento legítimo. A insistência em negar sua responsabilidade sobre o colapso, na prática entrega ao inimigo sua coroa.

Uma das maneiras mais interessantes de entender as disputas entre Atenas e Esparta na antiguidade grega vem daquilo que chamamos de Armadilha de Tucídides. Inspirada em algumas passagens da obra do historiador grego, A História da Guerra do Peloponeso, tal armadilha revelaria, segundo as interpretações contemporâneas, os perigos e limites de certo sistema quando colocado sob as disputas entre duas facções que se pretendem hegemônicas. No caso grego, a própria noção de cultura, ou de algo que identificaria aquilo que chamamos de civilização grega, teria sido colocada em risco pelo equilíbrio entre as duas cidades que, cada uma a seu modo, pretendiam liderar a região. As causas deste impasse, ou seja, um equilíbrio entre duas antagonistas que, não obstante suas particularidades, se auto proclamavam como legítimas representantes de certos valores e códigos, teria colocado em risco os próprios valores que imaginavam representar.

Este embate teria, então, enfraquecido a noção de civilização grega, fragilizada e vulnerável frente aos outros povos e civilizações que porventura tentassem dominá-la. Coube aos macedônicos, povo do norte liderado por Alexandre, a conquista sobre a Grécia. A sobrevivência dos gregos, depois de dramática vitória sobre os persas nas Guerras Médicas, dependeu, em certa medida, do entendimento que Alexandre tinha sobre ele mesmo como sendo um grego. Fosse Alexandre um ‘bárbaro’, a história seria outra.

É possível, a partir da ameaça à civilização grega e seus valores, especular sobre os motivos e eventos que os levaram a tamanho impasse. Generalizando e por analogia, pode-se também transferir as possíveis causas a outros eventos históricos que carregavam algumas semelhanças. Uma das explicações pertinentes reside na incapacidade da antiga liderança em manter sua hegemonia ante a expansão do sistema. Ela precisaria, neste caso, dividir sua liderança com alguma outra potência em ascensão. Por sua vez, a potência em ascensão cobraria um preço, por se entender como aquela que vai salvar o sistema cujo fiador não é ela. Neste caso, é possível que as duas potências, a antiga e a nova, se entendam e garantam a sobrevivência e reprodução dos valores que as unificam. O problema é que, muitas vezes, o preço cobrado pela potência em ascensão para dividir a responsabilidade com a antiga e decadente liderança é alto demais. Ao menos aos olhos daquela que não mais apresenta condições de liderar sozinha aquela civilização. Por isso, é mais comum que a possibilidade de compartilhamento da liderança se transforme em disputa entre elas. É por isso também que o mais comum é que a disputa entre elas enfraqueça as duas e, por consequência, aquilo que representam.

Esta é uma possibilidade de entendimento sobre as causas da Primeira Grande Guerra (1914-1918). A liderança financeira anterior ao conflito, exercida pela Inglaterra, mostrava seus limites e, por isso, buscava apoio da potência em ascensão, a Alemanha. O problema é que o preço cobrado pela Alemanha parecia improvável de ser pago pelos ingleses: a internacionalização do Deutsche Bank, assumindo posições até então dominadas pelos bancos britânicos, e a maior participação germânica em territórios africanos e asiáticos.

Uma outra hipótese sobre a dificuldade inglesa em manter sua liderança sobre o sistema financeiro anterior à Guerra de 1914 é a desconfiança que outros países tinham em relação ao comportamento dos britânicos. O padrão-ouro, cuja premissa era o balanceamento das perdas e ganhos do comércio internacional entre os países, era alvo de uma progressiva desconfiança. A hipótese de equilíbrio passava a ser entendida por muitos como um disfarce aos reais resultados que beneficiavam fundamentalmente à Inglaterra. Desta forma, a liderança britânica entrava em colapso não pela impossibilidade de, sozinha, dar suporte e garantias ao padrão-ouro, mas porque passou a ser vista como um risco moral. Ou seja, como algo que se vendia como o pilar de sustentação de um sistema amparado no equilíbrio entre os países, mas que entregava, na verdade, os melhores resultados aos ingleses.

Assim, a distância entre o risco moral representado pelos ingleses e a acusação que lhes foi feita – de que haviam traído o próprio sistema que lideravam – é curta. E a traição do líder legitima que todos os outros participantes também traiam e deixem de cumprir as regras fundamentais do sistema. Torna-se, desta forma, insustentável a manutenção do sistema e muito provável uma guerra entre os participantes. O conflito, então, potencializa a chance de que o próprio sistema entre em colapso antes de determinar quem é a sua nova liderança. A traição do líder, portanto, dispara uma reação em cadeia que destrói o próprio sistema. Ou, na melhor das hipóteses, o fragiliza ante a possibilidade de ser tomado por alguém de fora.

O problema maior nesta situação é que os participantes do conflito, que, em tese, comungam de alguns fundamentos do sistema a qual pertencem e pelo qual se reconhecem, só percebem que tamanha cizânia entre eles pode destruir os próprios pilares de seu modelo quando a ameaça que vem de fora está muito próxima. Na maior parte das vezes, não há tempo e nem força para resistir. Uma única saída pode garantir a sobrevivência do sistema e a união entre os seus membros: o perdão generalizado entre eles.

Porém, para que alguém possa perdoar é preciso que alguém peça perdão. No caso de risco moral e/ou de traição pela liderança dos valores que sustentam o sistema que ela mesma representava e garantia, o perdão deve ser pedido por ela. A grandeza e a responsabilidade da liderança é reconhecer que sua traição é verdadeira e que seu arrependimento é legítimo. E que por isso está disposta a dividir sua liderança com os outros participantes em nome da resistência e sobrevivência dos pilares do sistema. Caso contrário, na insistência em negar sua responsabilidade sobre o colapso, na prática entrega ao estrangeiro sua coroa.

Depois da Primeira Guerra Mundial, a insistência da Inglaterra e, em partes nada desprezíveis da França, em se arvorarem não só como inocentes em relação às causas do conflito, mas também aptas a retomarem o controle do modelo que até pouco antes representavam, dificultou a ascensão dos EUA. Também resultou na responsabilização da Alemanha. Dividir a liderança com os EUA era visto por ingleses e franceses como a aceitação de que os caipiras do outro lado do Atlântico podiam ser os guardiões dos valores ocidentais. Tamanha arrogância britânica e francesa fragilizou de tal modo os pilares do sistema – a democracia liberal e a economia de mercado – que facilitou que o estrangeiro tomasse o poder. Para azar deles, o estrangeiro era o Hitler, não Alexandre Magno. Quando se deram conta disso, era tarde demais: a Segunda Grande Guerra estava bem ali, na esquina. (O Estado de S. Paulo – 08/10/2018)

Vinícius Müller é doutor em História Econômica pela USP e professor do Insper.

De volta de Siracusa: as tiranias de reacionários e revolucionários

Por Vinícius Müller

Mark Lilla, que estará em novembro no Brasil para conferências no Fronteiras do Pensamento, teve suas obras “A Mente Imprudente” e a “A Mente Naufragada” publicadas pela editora Record. Vinícius Müller examina a obra do autor para o Estado da Arte.

Diz uma passagem da antiguidade que Platão, em uma visita à Siracusa, na ilha da Sicília, buscava junto a seu amigo Dion, transformar o chefe local, Dionísio, em um rei-filósofo. Tal desejo do discípulo de Sócrates se encontraria com a vontade do próprio Dionísio, disposto a ser aquele que, do alto de seu poder pessoal, se transformaria no promotor da paz e da justiça democrática. Depois de duas tentativas, Platão teria desistido de sua missão, sem esperança quanto à possibilidade de conciliar os mais nobres desejos de Dion, seu amigo, com as práticas tirânicas do Rei. Ao contrário do que supostamente pretendia o filósofo grego, Dionísio se transformara, não obstante seu manifesto interesse pelas virtudes do sábio, em um déspota dos mais sanguinários.

Para muitos, esta experiência obrigou Platão a repensar a sua própria especulação acerca da trajetória que uniria um período dominado pela tirania e outro, no futuro, democrático. A viagem de Platão a Siracusa, conta-se, foi rememorada por um professor alemão a seu colega, Martin Heidegger, quando o filósofo retomava suas aulas após a experiência de ter sido a mando do nazismo reitor da Universidade de Freiburg. “De volta de Siracusa?”, indagou o colega de Heidegger, se referindo à tentativa vã (e vil) do filósofo em ‘domesticar’ o tirano nazista. A mesma decepção que Platão teria sentido em relação a Dionísio, a quem pouco conseguiu ‘domesticar’ além de uma fina camada de sabedoria e cultura.

Estas histórias são lembradas por Mark Lilla em seu livro A Mente Imprudente: os intelectuais na Atividade Política (Record, 2017), a respeito do fascínio que as tiranias mais violentas do século XX exerceram sobre intelectuais do porte de Heidegger. Lilla, historiador norte-americano e professor em Columbia, não poupa ninguém em seu pequeno, mas denso ensaio sobre como intelectuais deram suporte e, em alguns casos, trabalharam diretamente aos déspotas modernos. Da direita à esquerda; de Jaspers a Derrida, de Schmitt a Foucalt, o despotismo de regimes e líderes como Hitler, Stálin, Mao Tsé Tung, entre outros, fascinaram e engajaram pensadores sem distinguir suas tendências políticas e ideológicas e, cada um em sua área, justificar os mais horrendos crimes do século XX.

Contudo, o que Lilla nos conta não é novidade. O insuspeito Immanuel Kant já buscava, na segunda metade do século XVIII, encontrar no despótico Imperador da Prússia, Frederico II, o líder que transformaria seu reino na morada da liberdade e da razão esclarecida, acima das paixões e do arcaísmo político. Voltaire, iluminista francês contemporâneo de Kant também flertou com esta combinação. A Experiência vienense, sob a batuta dos Habsburgo encontrou sossego nesta combinação, não muito distante das tentativas, em geral malogradas, de modernização pombalina em Portugal e bourbônica na Espanha dos oitocentos. Seria imperdoável esquecer, nesse caso, da megalomania napoleônica já nos novecentos, em sua combinação entre império e direitos.

O que o historiador norte-americano nos revela, contudo, é o mecanismo pelo qual esta identificação entre despotismo e intelectualidade se reproduz. Da antiguidade aos horrores do século XX, o filotirânico (expressão dada por Lilla ao intelectual que apoia e sustenta o tirano) se ampara na convicção de que sua paixão e suas pulsões são controladas, ao ponto de servirem ao engajamento político. Assim, com um verniz filosófico suficiente para incendiar os corações dos jovens, mas pouco para dar-lhes o distanciamento que deveriam ter em relação a sua paixão, sentem-se à vontade, inclusive em sua pretensa superioridade moral, para sustentar o tirano. Mais dos que isso, creem, concomitantemente, na transformação social operada pelo tirano, que imaginam domesticar. O engano é supor que suas próprias paixões estão controladas e que, ao enquadrarem o tirano, resolve-se o problema. Nada mais equivocado. A atração dos intelectuais pelos tiranos está justamente naquilo que são iguais; ou seja, na falta de prudência, em sua dependência às pulsões e irracionalidade.

Daí que, ao projetarem no tirano a transformação que imaginam forjar um novo mundo e uma sociedade melhor, criam uma imagem do passado que apenas busca confirmar suas vaidades, mesmo acreditando que têm a História sob seu domínio. O resultado seria a dupla relação, como um jogo de espelhos, de uma revolução liderada por um tirano, cuja alma dotada da razão dos iluminados revelaria o caminho ao futuro desde um passado que só o intelectual conhece e reconhece. Por isso, o revolucionário projeta um futuro que é novo e perfeito, mas retoma, paradoxalmente, a um passado mítico. Por isso também os revolucionários gostam tanto de Rousseau e de seu ‘bom selvagem’. Por isso, ainda, os revolucionários gostam tanto de tiranos, quando não são eles mesmos os próprios déspotas, em suas pequenas relações de poder, travestidos em reis-filósofos.

É neste ponto, na busca de um passado mítico que pode retornar, sob a égide de um tirano e seus asseclas intelectualizados, em forma de um futuro perfeito, que se encontram os tais donos de ‘mentes imprudentes’ e os reacionários. Tamanha associação se revela em outra obra de Mark Lilla, A Mente Naufragada: Sobre o Espírito reacionário (Record, 2018). Nela, numa surpreendente nota de rodapé, Lilla identifica em A Montanha Mágica, de Thomas Mann, um personagem que resumiria a relação entre o reacionário e o revolucionário: Leo Naphta, personagem do livro de Mann, é um judeu, doente e convertido ao catolicismo (ao ponto de se transformar em padre jesuíta) que, ao longo de sua vida, também dedica grande admiração pelas ideias comunistas. O histrionismo intelectual de Naphta se revela em uma nostalgia pela Idade Média europeia, pela feroz crítica à modernidade e pela defesa de que a ordem e a autoridade perdidas no mundo moderno só seriam resgatadas por uma revolução radical e violenta. A revolução redime e nos devolve ao passado, quando a ordem e a autoridade imperavam. Eis a ‘lógica’ histórica do personagem de Mann. Não muito diferente de uma lógica fascista. O curioso é que a inspiração do autor alemão para criar o personagem não foi um reacionário ou fascista, e sim Gyorgy Lukács, filósofo e revolucionário marxista.

A diferença entre eles é que o reacionário olha para trás, tornando a nostalgia irrefutável. Não é o conservador, mas aquele que olha para a História como um exilado do tempo. Alguém que quer parar a História, pois quer voltar no tempo. E assim, busca vingança contra a mesma História, que ao fluir, transformou o que era sagrado em profano. O reacionário, portanto, lamenta a História pelo o que ela fez com o passado perfeito. Por isso, no rio da História, o reacionário não navega, e sim naufraga, como estivesse se afogando. O revolucionário, por sua vez, quer se vingar da História, não apenas pelo o que ela fez com o passado mítico, mas, também, pelo o que ela ainda não fez pelo futuro idealizado. Deve ser por isso que Lilla, na última frase de A Mente Naufragada, diz que ‘temos consciência de que os slogans revolucionários mais poderosos da nossa época começam com Era uma vez…’ .

Ambos, reacionários e revolucionários, em suas lamentações, rancores e desejos de vingança, querem domar a História, como se fossem maiores do que ela. Não são, evidentemente. A nostalgia dos reacionários é a irmã gêmea da arrogância dos revolucionários. Ambos dispostos a apoiar, a partir de mirabolantes exercícios intelectuais, tiranos e tiranetes e suas pretensas sabedorias que, no fundo, não passam de fino verniz. A História é e deve ser sempre maior do que eles. (O Estado de S. Paulo – 24/10/2018)

Vinícius Müller é doutor em História Econômica pela USP e professor do Insper.

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