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César Felício: Bolsonaro pode ter que rever isso aí

O começo do governo de Jair Bolsonaro, do ponto de vista das consequências concretas na vida brasileira, começou de fora para dentro. A decisão do governo cubano de colocar um ponto final em sua colaboração no Programa Mais Médicos apresenta a Bolsonaro a sua primeira crise, já para o mês de janeiro, na hipótese mais extrema.

Tudo leva a crer que o presidente eleito articulava uma retirada planejada dos 8.332 médicos caribenhos. Só um louco, algo que Bolsonaro não é, deixaria a descoberto a atenção básica nos municípios mais vulneráveis do país. O presidente cubano Díaz-Canel pagou para ver, com o anúncio do fim da sua participação e do bate-boca pelo Twitter com o presidente eleito brasileiro.

Para que tal crise social não se suceda, Bolsonaro teria que recuar, de modo muito mais humilhante do que teve que fazer em relação a transferência da embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém. Neste último caso, o ato unilateral em favor de Israel, já anunciado, saiu da mesa posta para a prateleira das hipóteses depois que o Egito cancelou uma visita do atual chanceler ao país.

Sob extrema pressão, Bolsonaro mostrou na quarta-feira que reage dobrando a aposta. Tornou público que destinava o Itamaraty a um defensor do “anticosmopolitismo radical”. Poucas pessoas no Brasil superam Ernesto Fraga Araújo em ultraconservadorismo e ultranacionalismo, a julgar pelo que o diplomata andou escrevendo. Seu artigo “Trump e o Ocidente”, com argumentação sólida e texto bastante cristalino, revela um opositor da Revolução Francesa. É difícil acreditar que um ideólogo por natureza como Fraga aja no governo pautado pelo cálculo político e pelo pragmatismo.

É considerável, portanto, a possibilidade de Bolsonaro não ceder e o governo Temer, em sua reta final, não conseguir montar um plano de contingência para contornar o problema. A grita na base municipal é imensa.

“Isso vai nos matar”, afirma Felipe Uchôa, prefeito de Umirim. A 90 quilômetros de Fortaleza, Umirim conta com sete médicos do programa, sendo dois cubanos. Já chegaram a ser quatro, mas a paulatina nacionalização do programa aumentou a quantidade de profissionais cearenses.

Não seria portanto um exagero tamanho desespero por causa do desfalque de dois profissionais? O prefeito do PSD diz que não. O município tem cerca de 20 mil habitantes, 60% na zona rural e é lá que estão os médicos do programa.

Umirim vive do FPM, 80% de sua receita é para o pagamento da folha, nos meses de repasses mais baixos, e passa por um momento de decadência econômica, depois de sete anos de estiagem. Chegou a ter uma produção leiteira de 30 mil litros por dia. Hoje são 6 mil, porque o capim acabou. Uma parceria com o Sebrae e o Banco do Nordeste fomenta um programa de criação de galinhas caipiras, e isso é tudo. A prefeitura é obrigada a gastar em despesas como o custeio de três carros-pipas, que todos os dias percorrem a zona rural para abastecer de água as cisternas. Uchôa afirma que consegue honrar a folha de pagamento, mas admite que os fornecedores às vezes demoram a receber.

“Estamos no sufoco, só fazemos o básico e não temos como contratar ninguém”, sintetizou. E Umirim está longe de ser o município mais atingido no Ceará. Em Morada Nova, 21 dos 23 médicos do programa são cubanos. O Ceará também é menos atingido do que a Bahia, onde há 822 profissionais do País; ou o Maranhão, residência temporária de 457 cubanos. A estimativa de autoridades da área é que o processo para uma substituição emergencial de profissionais demoraria no mínimo 90 dias.

Caso a calamidade pública se concretize, Bolsonaro começa seu governo com o fosso reforçado entre o universo dos seus eleitores e o dos que não votaram nele. Em Morada Nova, o presidente eleito teve apenas 15,29% dos votos. A mancha de sua votação no Brasil mostra um clarão exatamente nos municípios com mais baixo IDH, maior população rural e, em geral, proporcionalmente mais dependentes do Programa Mais Médicos para a atenção básica na saúde. Bolsonaro será obrigado a fazer uma correção de rota.

Dias antes do anúncio cubano, Bolsonaro havia recebido um dos candidatos ao Ministério da Saúde que estão sendo entrevistados, o deputado Luiz Mandetta (DEM-MS). Ao comentar sobre o encontro, o presidente eleito deixou claro que não programava investimentos para a área. A tarefa principal do futuro ministro, segundo Bolsonaro, era “tapar os ralos”, “facilitar a vida do cidadão e economizar recursos”. “Não temos como falar em investir mais em saúde porque estamos no limite em todas as áreas”, disse o presidente eleito, de acordo com relato da Agência Brasil. Com a ofensiva de Díaz-Canel, o presidente eleito vai ter que “rever isso aí”.

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Um dos caciques do Centrão avalia que as condições estão dadas para que surja um novo partido reunindo o centro ideológico, em um arco que vai do PPS a Márcio França, de Geraldo Alckmin a Luciano Huck, de Paulo Hartung a Aldo Rebelo, de Armínio Fraga a Tasso Jereissati. “Dez lideranças importantes fazem um novo partido no Brasil. Até para concorrer em 2020 conseguem”, comenta.

O que ele duvida é que as pessoas citadas, sobretudo as do PSDB, tenham real disposição de sair da sigla e de embarcarem na aventura.

Se condições reais existem e não há disposição efetiva, o processo que realmente estaria em curso, entre os tucanos do grupo, é a busca de uma negociação dos espaços no partido em uma posição de força em relação ao governador eleito de São Paulo, João Doria.

Outra possibilidade é que exista uma aliança já visando 2022 em gestação, algo que possivelmente será acelerado depois das escolhas das mesas diretoras da Câmara e do Senado, em fevereiro. (Valor Econômico – 16/11/2018)

César Felício é editor de Política. Escreve às sextas-feiras – E-mail: cesar.felicio@valor.com.br

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