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Guga Chacra: Conservadores se iludem com Israel

Alguns movimentos conservadores cristãos no Brasil e nos EUA se dizem defensores de Israel ao mesmo tempo em que muitos deles questionam a ciência em questões climáticas, repudiam o direito ao aborto, posicionam-se contra políticas pró-imigração e, em certos casos, também combatem direitos das comunidades LGBTQ.

Basta pegar o exemplo do futuro chanceler brasileiro, Ernesto Araújo. Em artigo, o diplomata afirmou que “o alarmismo climático, o terceiro-mundismo automático, a adesão às pautas abortistas e anticristãs nos foros multilaterais, a destruição da identidade dos povos por meio da imigração ilimitada, tudo isso são elementos da “ideologia do PT”, ou seja, do marxismo.”

Este posicionamento erra, em primeiro lugar, ao associar estas bandeiras ao PT, que nunca lutou pelo direito ao aborto. Tanto que ficou 14 anos no poder e a prática segue ilegal no Brasil — nos EUA, foi legalizada em decisão da Suprema Corte em 1973. Na questão da imigração, foi o governo de Michel Temer que aprovou uma política mais aberta. E a preocupação com clima no Brasil antecede —e muito — ao PT.

Em segundo lugar, estas bandeiras do direito ao aborto, pró-imigração e preocupação com as mudanças climáticas são mais associadas a figuras como Justin Trudeau (Canadá), Emmanuel Macron (França) e Israel. Isso mesmo, Israel é uma das nações mais entusiastas da imigração, uma das com maior liberdade para a comunidade LGBTQ, uma das mais preocupadas com as mudanças climáticas e que apresenta em sua legislação poucas restrições ao aborto.

Israel está na vanguarda do desenvolvimento de tecnologias para frear o aquecimento global. Tel Aviv está entre as cidades mais amigáveis para os gays em todo o planeta. Entre os cidadãos israelenses, há imigrantes de Teerã, Porto Alegre, Rosário, Miami, Moscou, Paris, Casablanca e Toronto. Se uma israelense engravidar, ela pode abortar em uma série de circunstâncias — há necessidade de aprovação de um comitê, mas este aprova em 98% dos casos.

Não podemos esquecer que Israel era inicialmente uma nação com traços socialistas. O sindicato Histadrut, fundado há quase cem anos, foi um dos pilares da fundação do Estado israelense, assim como os kibutzim, como são conhecidas as fazendas coletivas no país. Nos seus primeiros 30 anos de História, Israel foi governado por partidos integrantes da Internacional Socialista. Entre seus líderes, estiveram os primeiros-ministros de centro-esquerda Ben Gurion, Golda Meir, Yitzhak Rabin e Shimon Peres — quatro dos mais importantes líderes da história israelense, sendo três deles imigrantes europeus.

Sim, Israel tem uma coalizão de direita no poder liderada por Benjamin Netanyahu, e há conservadores religiosos no país. Mas a direita de Netanyahu está em questões de segurança e econômicas, além de temas internos da comunidade judaica e outros ligados aos direitos dos árabes-israelenses. Mas o premier não questiona as mudanças climáticas e o direito ao aborto. Se quiser uma nação anti-imigração, anti-LGBTQ e anti-aborto, recomendo a Arábia Saudita ou o Irã. Até nestes países, porém, há preocupação com as mudanças climáticas. (O Globo – 29/11/2018)

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