CIDADANIA23

PORTAL NACIONAL

Ipea: Em 30 anos haverá mais beneficiários do que contribuintes da Previdência

Reprodução

Previdência: Em 30 anos haverá mais beneficiários do que contribuintes

Leila Souza Lima – Valor Econômico

SÃO PAULO – O desequilíbrio financeiro que consome expressiva parte do orçamento público com o pagamento de pensões e aposentadorias no país tende a se agravar com o fim do bônus demográfico e o rápido envelhecimento da população já na próxima década. Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), concluído no ano passado, mostra que, em aproximadamente 30 anos, haverá mais beneficiários do que contribuintes para o INSS, se não houver reestruturação do sistema.

Cálculos do instituto mostram que se todos os brasileiros de 15 a 64 anos recolhessem ao INSS hoje, haveria 7,5 trabalhadores para cada idoso de 65 anos ou mais de idade. Em 2060, essa proporção cairia para 2,3.

O problema, segundo o pesquisador Rogério Nagamine, coordenador de Seguridade Social do Ipea, é que essas estimativas não refletem a realidade. “Nem todos os que têm entre 15 e 64 anos contribuem (para a Previdência), e os benefícios pagos também não se restringem a idosos na faixa de 65 ou mais de idade”, ressalta Nagamine.

Assim, aponta ele, ao olhar para a situação do mercado de trabalho hoje e para os dados demográficos, vê-se um potencial máximo de contribuintes por beneficiário que nunca será atingido.

“Você tem, hoje, dois contribuintes para cada beneficiário de aposentadorias ou pensões. Chegaremos a um para um, em 2040, e, já na década de 2050, a situação se inverterá, com mais beneficiários que contribuintes”, detalha o economista, reforçando que a reforma do sistema da Previdência deve ser colocada em prática o mais breve possível — mesmo assim, quando aprovada, já estará atrasada.

“Sem mudanças, a situação é essa”, diz Nagamine. Ele esclarece que os cálculos consideram a dinâmica populacional estimada em 2013, revisada pelo IBGE no ano passado, e número de contribuintes (trabalhadores formais) dado pela Pnad Contínua de 2017. E embora a participação da população idosa seja muito próxima da estimativa anterior — com mudanças sobretudo em fecundidade —, os dados indicam uma contínua e rápida piora na sustentação da estrutura previdenciária. Os números são bem mais preocupantes devido a fatores como inatividade, desemprego e informalidade — quando um universo não desprezível de pessoas trabalha, para terceiros ou por conta própria, sem recolher à aposentadoria.

Ainda que fosse aprovada hoje no Congresso Nacional, o custo do seu atraso tornou-se passivo importante que requer melhor compreensão de medidas que enfrentam grande rejeição da sociedade. Taxação e cortes de privilégios estão entre elas. Mas extinguir ou até fazer ajustes parciais em regras vigentes, mesmo em face desse cenário, não é algo fácil.

“Leva-se tempo para mudar a trajetória das despesas. Você começa, pelos padrões normais, com benefícios novos, por isso é urgente fazer logo. Senão podem haver situações no limite, como quando sequer se consegue mais honrar valores e direitos já concedidos, a exemplo do que ocorreu na Grécia e em Portugal”, alerta Nagamine.

Sempre houve um problema de comunicação à sociedade por parte do poder público sobre origem, extensão e implicações das distorções que impactam as contas da Previdência, enquanto a proximidade da reforma no sistema leva a uma corrida de trabalhadores a postos do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) para se habilitarem aos proventos – mesmo quando o pedágio do fator previdenciário reduz valores. Pesa o medo de terem a concessão adiada por dez ou mais anos.

Aos 49 de idade, a matemática Márcia Conilio, moradora da capital paulista, fez essa opção após trabalhar 31 anos no setor bancário. Sem segurança em relação ao que pode ser alterado nas regras previdenciárias, deu entrada no pedido de aposentadoria em agosto de 2018, mesmo pagando o “pedágio” por não ter atingido a regra 85/95.

“Fiz isso porque alcancei o tempo de contribuição mínimo necessário e não queria me arriscar. Eu estava ansiosa por conta das notícias sobre as mudanças, torcendo para que não passassem antes”, conta.

Nenhum conteúdo relacionado

Deixe uma resposta