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71% dos feminicídios e tentativas são cometidos pelo atual e ex-companheiro, diz jornal

Atual ou ex cometem 71% de feminicídios e tentativas

Ao menos 119 mulheres foram mortas no Brasil em janeiro por causa de seu gênero; outras 60 sobreviveram

Folha de S. Paulo

CURITIBA, BELO HORIZONTE, PORTO ALEGRE, RIO DE JANEIRO E SÃO PAULO – Foi dentro do quarto do filho de três anos que a professora Rosângela da Silva, 32, foi surpreendida pelo ex-namorado em uma noite de janeiro. O empresário Alexandro Lautenschlager, 31, arrombara e invadira sua casa, inconformado com o fim da relação.

Ela registrou boletim de ocorrência por ameaça e conseguiu medida protetiva contra ele. Dias depois, porém, desapareceu. Foi encontrada morta, à beira de um rio, no interior de Mato Grosso.

A professora é uma das 179 mulheres que, em janeiro deste ano, foram vítimas de feminicídio ou sobreviveram a uma tentativa de feminicídio noticiados no país. É uma média seis crimes por dia.

Levantamento feito pela Folha para marcar o Dia Internacional da Mulher, celebrado nesta sexta (8), mostra que 71% dessas mulheres — as que morreram e as que sobreviveram — foram atacadas pelo atual ou ex-companheiro. De cada 4 suspeitos, 1 tinha histórico de violência ou antecedentes criminais.

“A violência contra a mulher não ocorre uma só vez. Ao contrário, é padrão de comportamento daquele homem no relacionamento com suas parceiras e com outras mulheres”, diz a promotora Valéria Scarance, coordenadora do Núcleo de Gênero do Ministério Público de São Paulo.

As estatísticas foram compiladas p ela Folha a partir de um levantamento feito pelo advogado Jefferson Nascimento, pesquisador da USP, que se baseia em casos publicados na imprensa brasileira.

A Folha analisou notícias e tabulou dados disponíveis sobre cada caso. São 119 mortes e 60 tentativas de feminicídio.

A análise, que abrange crimes ocorridos em 25 estados, mostra que a mulher vitimada pelo crime tem, em média, 33 anos, e o agressor, um pouco mais: 38 anos.

O inconformismo com o fim do relacionamento aparece entre os motivos mais citados para a agressão (18%), logo atrás de brigas, ciúmes ou suposta traição (25%).

No caso da professora de Mato Grosso, o relacionamento começou bem.

Lautenschlager, que ela conheceu numa balada de final de semana, a presenteava com frequência e parecia educado e prestativo, segundo familiares.

“Enchia a casa de flores, fazia comidas diferentes”, diz Quitéria da Silva, 48, irmã de Rosângela. Alguns meses depois, porém, ela começou a se queixar. Ela decidiu pedir um tempo no relacionamento. Lautenschlager, principal suspeito da morte da professora, não se conformou.

O empresário foi detido na fronteira com o Paraguai, dias depois do desaparecimento da ex-namorada. Ele não confessou o crime e se manteve calado, mas continua preso.

Scarance destaca que a separação é um dos principais fatores de risco para o feminicídio, quando associada à perseguição incessante, menções a suicídio pelo agressor e histórico de violência.

Dos casos analisados pela Folha, pelo menos 11 culminaram no suicídio do agressor. Em 15 deles, crianças presenciaram o crime.

“Empoderadas, as mulheres são incentivadas anão ficarem em relacionamentos abusivos. Esses rompimentos colocam a vida das mulheres em risco. A vontade da mulher acaba, como sempre, não sendo respeitada”, diz a juíza aposentada Maria Berenice Dias, autora de “A Lei Maria da Penha na Justiça” e referência no combate à violência contra a mulher.

O ciúme, outro dos principais motivos do feminicídio, foi o que motivou a morte da servidora pública Rosane Apolinário, 42, em Forquilhinha (SC), cidade de 26 mil habitantes, no final de janeiro.

Ela foi estrangulada e depois degolada pelo marido, Vanderlei Dahmer, 54, com quem tinha um filho adolescente. O homem foi preso e confessou o crime, dizendo ter sido motivado por ciúmes e que suspeitava de traição.

Poucos dias depois, outro morador da cidade foi indiciado sob suspeita de ser mandante da morte da esposa, Nely Fernandes Schuvinski, em 2017. Ele nega a suspeita.

“A verdade é que tem muitas Rosanes e Nelys que sofrem com a mesma situação de violência”, diz a psicóloga joseane Nazário, 34, uma das coordenadoras de um programa de prevenção à violência contra a mulher em Forquilhinha, em parceria com a arte-educadora Andreza de Oliveira.

Depois do crime, a procura pelo programa aumentou. Em 2018, apenas quatro mulheres participaram do projeto. Neste ano, dez já se inscreveram.

“É muito difícil porque o ciclo da violência acontece de forma sutil”, diz Nazário. “Às vezes são agressões verbais, morais, financeiras. O companheiro impede a mulher de trabalhar, reclama de suas roupas, e diz que a ama, que quer protegê-la.”

No levantamento da Folha, 47% dos crimes ocorreram na casada vítima. A faca for a arma mais usada (41%), seguida por armas de fogo (23%).

Nos casos estudados, 74% dos crimes cometidos com armas de fogo resultaram em morte — contra 59% no caso de agressões a facadas. (Estelita Hass Carazzai, Fernanda Canofre, Júlia Barbon, Júlia Zaremba e Paula Sperb)

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